O sonho do catador de papelão João Aparecido Macena, 37 anos, de ter um terreno para morar, pode acabar na quinta-feira, quando o governador Jaime Lerner retorna de sua viagem aos Estados Unidos. Apesar de a Justiça já ter concedido liminar favorável à reintegração de posse de parte dos 30 hectares de uma área de preservação permanente ocupada por famílias de sem-teto, uma ação concreta da polícia só deve ocorrer com autorização do próprio governador. A governadora em exercício, Emília Belinati, se recusou a autorizar uma operação violenta para retirar os barracos instalados entre a BR-277 e o viaduto da Avenida das Torres, na divisa dos municípios de Curitiba e São José dos Pinhais.
Enquanto aguarda a volta de Lerner, Macena espera com a mulher e o filho de três anos em uma pequena barraca. ‘‘Estou batalhando para conseguir alguma coisa para o piazinho’’, disse, referindo-se ao filho. ‘‘A gente está aqui arriscando a vida, correndo o risco de ser mordido por cobra e aranha porque precisa de terra. Se não precisasse não estávamos aqui.’’ A ocupação vem sendo feita de forma desordenada há mais de duas semanas. Até sexta-feira havia cerca de 200 famílias, com muitas crianças, acampadas em barracos de lona com condições precárias. Os sem-teto são ajudados por moradores dos bairros próximos com alimentação e água. Todos vêem na área ocupada a esperança de realizar o sonho da casa própria.
O secretário estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos, Hitoshi Nakamura, disse que os sem-teto terão que deixar a área ‘‘mesmo que seja necessário o uso da violência’’. Para ele, a população de Curitiba e Região não pode pagar o ônus provocado por ‘‘algumas pessoas.’’
Na semana passada Nakamura fez um apelo para que as famílias deixassem o terreno, mas, ao contrário, a ocupação cresceu e muito. Os sem-teto calculam que cerca de 600 famílias tenham armado barracos até ontem. Segundo o pedreiro Guido Magalhães da Silva, 64 anos, estão acampadas mais de três mil pessoas.
Magalhães organizou durante a manhã de ontem a divisão dos lotes. ‘‘Para não dar briga e desordem’’, disse. O pedreiro está cuidando de um terreno para um filho deficiente, de 36 anos. ‘‘Ele tem que ter um local onde morar porque eu não vou estar sempre aqui’’, afirmou.Marcelo AlmeidaNa área de 30 hectares, já há cerca de 600 famílias morando em barracos. Para o cobrador de ônibus João Pedro Wolf, ‘‘fica difícil dizer que não vai ter reação’’ no caso de um confronto com a políciaJames Alberti

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