Toda mulher que é diagnosticada com câncer de mama sofre impacto psicológico muito forte e precisa lidar com mudanças drásticas em pouco tempo. Além das consequências físicas ao passar pela cirurgia de mastectomia e ao longo do tratamento quimioterápico, elas precisam lidar com outros traumas, entre eles a mudança no visual. Foi pensando nisso que as esteticistas Elisangela Scremin e Luciane Torres, de Londrina, começaram o projeto Amigas do Peito. Em sua terceira edição, realizada nesta segunda-feira (29), o projeto oferece gratuitamente a micropigmentação de sobrancelhas, aréolas, megahair de sobrancelhas e hidratação facial em 21 pacientes com câncer de mama.

Mutirão foi realizado na segunda-feira; voluntárias vestiram rosa em alusão à  campanha Outubro Rosa
Mutirão foi realizado na segunda-feira; voluntárias vestiram rosa em alusão à campanha Outubro Rosa | Foto: Saulo Ohara



O chamado Mutirão do Bem teve a participação voluntária de sete profissionais da área de estética. Todas realizaram atendimentos com toucas, jalecos e luvas rosas, em alusão à campanha Outubro Rosa.

Dependendo do tamanho do tumor, do seio, do estágio da doença e do histórico familiar, a retirada total da mama é o tratamento mais indicado. Porém a perda dos seios mexe com os aspectos psicológicos da mulher, já que lida com questões como sexualidade, maternidade e feminilidade. O SUS realiza a cirurgia de reconstrução de mama e mamilo, mas da aréola não.

A funcionária pública Irina Todero, 47, foi diagnosticada com câncer em 2013 e realizou a micropigmentação da aréolas e das sobrancelhas pela segunda vez. "Quando fui diagnosticada com câncer, imaginei a morte. Eu tenho filhos e na época meu caçula tinha três anos. Eu imaginava que iria deixá-lo órfão. Foi muito difícil. Fiz seis cirurgias, entre elas duas mastectomias. Uma foi realizada por causa do câncer e a outra porque tenho uma mutação genética que predispões ao câncer", contou.

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"Não é fácil. Além de lutar contra o câncer e o medo de morrer, você tem que lidar com a sua imagem, que fica deturpada e você não se reconhece no espelho. É bem difícil. Durante o tratamento você perde o cabelo, ganha ou perde peso. É bem difícil", relatou. Ela ressaltou que mesmo fazendo a reconstrução mamária, parecia que ficava faltando alguma coisa. "Você coloca a prótese, mas falta aquele acabamento. Você tem um volume e uma forma de mama, mas ela não lembra a sua mama, porque falta aquele desenho", destacou.

"De início fiquei com medo de me entregar a alguém que não conhecia. Fui tão bem acolhida e fizeram um trabalho tão bom que foi um presente", observou Todero, ao falar sobre a participação no Mutirão do Bem, realizado na Vita Derm Londrina. "Depois que vi o resultado diante do espelho, eu chorei. Me senti bonita, coisa que não sentia há tanto tempo. Até as pessoas que trabalham comigo sentiram que eu estava mais feliz. Isso reflete nas relações. É algo maravilhoso. Essa equipe também tem uma energia curativa", destacou.

Outra pessoa que estava no mutirão é a professora Cíntia Benedita dos Santos Paixão, 34, que foi diagnosticada com câncer de mama em 2017. "Fiquei em quimioterapia por seis meses. Retirei a mama esquerda e esvaziei a primeira camada da axila. Após a cirurgia passei por 25 sessões de radioterapia e terminei o tratamento há 60 dias", contou. Contudo, depois da quimioterapia perdeu todos os pelos do corpo. Os cabelos e os pelos voltaram a crescer, mas a sobrancelha não ficou como era antes do tratamento.

A micropigmentação representa muito para Paixão. "Antes eu pensava na questão do cabelo, e optei por usar uma peruca. Mas a sobrancelha não tinha o que substitui. A maquiagem não tem o mesmo efeito", justificou. "Nos primeiros dias que perdi a sobrancelha, eu só saía de óculos escuros, mas é bem complicado esse processo da aceitação. Eu fiquei sabendo desse serviço por um grupo de apoio e me inscrevi", destacou.

'Quando perdi os cabelos não me reconheci'

"Temos que ter ânimo para seguir cada etapa", declara  Marina Marciano Mestre
"Temos que ter ânimo para seguir cada etapa", declara Marina Marciano Mestre | Foto: Saulo Ohara


O apoio da família se mostrou fundamental para que a dona de casa Marina Marciano Mestre, 60, não sofresse depressão. Ela foi diagnosticada com câncer em 2017, durante o exame de rotina. "A equipe médica me passou segurança e correu tudo bem. Tirei a mama toda, coloquei expansor, fiz quimioterapia. Muita coisa mudou. Perdi cabelo e não entrei em depressão. Acho que foi o apoio da minha família e isso me deu segurança e me senti tranquila", destacou.

Nesta segunda-feira ela realizou a micropigmentação das sobrancelhas. "O tratamento faz você mudar muito o rosto em pouco tempo. A micropigmentação é uma maneira de recuperar a autoestima. Quando perdi os cabelos e a sobrancelha não me reconheci. Fiquei triste, porque não parecia que era eu. Como respondi bem ao tratamento, isso deu forças para superar essas perdas. Agora que está terminando o tratamento, essa micropigmentação está me ajudando a recuperar uma aparência melhor. Isso mostra que a vida segue em frente. Temos que ter ânimo para seguir cada etapa", declarou.

'Fazer isso nos satisfaz e nos engrandece'
Segundo a esteticista e micropigmentadora Luciane Torres, a ideia do projeto Amigas do Peito surgiu quando soube que existia a micropigmentação paramédica para reconstrução areolar. "Me interessei em fazer um trabalho voluntário. Fui para São Paulo, fiz o curso há quatro anos, e atualmente atendo duas pacientes por mês ao longo do ano. Foi quando surgiu a ideia de fazer esse mutirão do bem para atender um número maior de pacientes, com o auxílio dessas voluntárias. Hoje a gente atendeu o que eu levaria um ano para atender. Essas profissionais doaram o seu tempo e o seu talento para resgatar a autoestima dessas mulheres", destacou.

"O que eu ouço delas é que depois da micropigmentação elas deixaram de ser estatística para se tornar uma pessoa que é cuidada e tratada. Isso traz a autoestima de volta. Quando você está passando por uma crise, precisa de algo normal na sua vida e o normal é acordar, se olhar no espelho, escovar o cabelo, passar um batom, mas elas não têm sobrancelha. A micropigmentação traz isso para elas", declarou. "Eu tenho gratidão em ter talento para ajudar estas pessoas."

A esteticista Elisangela Scremin, proprietária do espaço em que foi realizado o mutirão, também doou os materiais utilizados no projeto. "Perdi meu marido para o câncer e quando a Luciane me trouxe esse projeto eu abracei. É maravilhoso ver o sorriso e a autoestima delas, se achando bonitas e que são mulheres verdadeiras. Fazer isso nos satisfaz e nos engrandece como pessoa", afirmou.

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