Abrindo caminhos para a inclusão
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 09 de julho de 2018
Pedro Marconi<br>Reportagem Local 

"Antes tinha dificuldade para me comunicar com meus colegas. Agora é diferente e consigo conversar, o que me deixa feliz", conta Gustavo Custodio, que trabalha como auxiliar administrativo há um ano em uma cooperativa médica de Londrina. Ele é surdo e mudo desde criança e passou pelo mesmo processo e dificuldades que muitas pessoas com deficiência encontram diariamente no mercado de trabalho. No caso dele, a empresa buscou profissionais para ensinar a libras (Língua Brasileira de Sinais) para outro colaboradores, promovendo a interação.
"Era limitado o entendimento que tinha sobre o que as pessoas tentavam passar para mim e eu para elas. Hoje me sinto mais incluído e até facilitou o trabalho. Tem uma outra colaboradora no mesmo setor que também não fala e escuta e nós conseguimos nos integrar", explica Custódio. A Unimed Londrina conta com 22 deficientes distribuídos pelos 19 setores. Quatro deles são auditivos. Desde 2017, a cooperativa, que possui 594 funcionários, passou a ofertar cursos de libras para os colaboradores por conta dos trabalhadores com deficiência.
A formação acontece na própria empresa, durante o expediente de trabalho, e tem caga horária de 30 horas, que é o tempo de um curso básico de libras. Jhonatas Luciano Morais participou do primeiro curso. "Foi uma experiência maravilhosa. Conhecer outra língua foi muito gratificante. Conversamos muito com o Gustavo e a outra colega do setor sobre tudo, desde trabalho até assuntos do cotidiano", destaca.
ENEM
O responsável por ministrar os cursos, que fazem parte do projeto Unir, foi Douglas Komar Silva. Formado em libras e especializado em educação especial, é professor de língua de sinais em universidades. Nasceu ouvinte, mas em razão de uma meningite ficou surdo com quatro meses de vida. Para ele, as empresas têm tido mais interesse em fomentar este tipo de atividade. "Proporciona acessibilidade para a comunidade surda. As empresas começaram a voltar atenção para isso principalmente depois do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) de 2017, que tratou do assunto surdez na redação. Independente da cota, é preciso atender o surdo", adverte.
Verediana Dias, que trabalha como assistente de compras, participou do segundo grupo que fez o curso de libras. As aulas se encerraram em maio. Ela trabalha com um colaborador surdo na mesma sala. "Me interessei em fazer e acabou agregando no conhecimento, pois oferece uma oportunidade a mais na profissão. É desafiador, pois são muitas informações. Requer muito estudo e treino. Conversávamos com esse colega tentando leitura labial e agora estamos praticando e vimos que ficou mais fácil."
NOVA TURMA
Foram realizados dois cursos. Por conta do interesse, o segundo foi aberto para todos os colaboradores e não somente para aqueles que trabalham no mesmo setor dos deficientes auditivos. "Cerca de 40 pessoas participaram destes cursos e vemos que a procura continua grande. Em breve abriremos a terceira. Também é uma oportunidade de desnivelar patamares, pois não é porque consigo falar e ouvir que sou melhor do que o outro. É mostrar que existem diferenças e não impedimentos", pontua Anderson Shimpo, assistente de desenvolvimento humano e um dos encarregados por organizar a formação.

TRABALHO MELHOR
Operador de máquinas em uma fábrica de tintas e resinas em Cambé (Região Metropolitana de Londrina) há dois anos e meio, Alexsandro Andrade Oliveira disse se sentir mais feliz por poder se comunicar com os colegas de trabalho. A empresa disponibiliza curso de libras para os funcionários há mais de dez anos. Atualmente, três colaboradores surdos e mudos desenvolvem atividades no setor de envase (envasilhamento). "A comunicação para a pessoa com surdez é um desafio quando se encontra um trabalho, por isso ter o curso faz com que fique mais integrado", aponta Oliveira, que tem pouquíssima audição no ouvido direito. Ele ficou surdo ao cair de bicicleta e bater a cabeça quando tinha três anos.
Colega de trabalho de Oliveira, Maria da Conceição Sousa fez o curso de libras básico na empresa em 2015. O gosto pela língua de sinais foi tanta, que ela está cursando desde 2017 o nível intermediário de libras, que é ofertado no salão comunitário de uma igreja de Cambé ao sábados. "Desde que comecei a trabalhar com deficientes auditivos senti a necessidade de entendê-los e vou continuar buscando mais conhecimento", diz.
Fernando de Faria, coordenador de envase, explica que os cursos foram ofertados para as lideranças das áreas e para aqueles que tivessem interesse em aprender. "Antes nós tínhamos que escrever para nos comunicarmos. Agora vou aprendendo mais com eles, que corrigem se erramos algum sinais. Se sentem mais motivados", ressalta.
Antes, um tradutor tinha que ir à empresa para transmitir as informações para os deficientes auditivos durante convenções e cursos, entre outros. "Isso não é mais preciso. Vemos que eles não têm dificuldade e estão trabalhando junto com os demais e não separados por terem a surdez. O interesse dos funcionários foi natural em aprender", diz Wivian Pelisson, gerente de recursos humanos da empresa.


