Contrariando as estatísticas policiais que colocam a absoluta maioria dos homicídios praticados em Londrina como consequência direta do narcotráfico e crime organizado, abril já desponta como o mês com maior ocorrência de crimes motivados por razões passionais e ciúme. Dos 15 assassinatos registrados no período, a polícia suspeita que quatro tenham esse perfil. Três ocorreram nas duas últimas semanas.
A escalada dos crimes começou com a morte da costureira Célia Adriana Fileto 30 anos, na última sexta-feira. Ela recebeu uma facada na virilha e o principal suspeito é o namorado. Dois outros crimes desta semana, um ocorrido na terça-feira e outro anteontem, tiveram início em discussões motivadas por ciúme e vitimaram José Rita das Dores, 45 anos, e Uoelinton dos Santos, 20 anos.
No primeiro caso, a vítima discutiu com um homem que teria espionado sua mulher (veja matéria neste caderno). O suspeito teria voltado armado para tomar satisfações. Santos foi morto por um amigo de longa data, Claudemir Alves Antal, 26 anos. Antal teria suspeitado de um envolvimento do amigo com sua esposa.
Os crimes envolvendo os homens, no entanto, não são enquadrados legalmente como passionais, uma modalidade que pressupõe uma relação de afetividade entre vítima e criminoso. Crime que, via de regra, as mulheres são as principais vítimas. Só neste ano, a Polícia Civil de Londrina investiga três assassinatos de mulheres cujos parceiros são os principais suspeitos. Ao caso da costureira já citado, incluem-se a morte da estudante de enfermagem Eline Maria Rodrigues Dessunti 23 anos, assassinada a tiros em casa no início do mês e de Luciene Meire de Oliveira, 31 anos, morta em fevereiro.
O número é alto, já que em todo ano passado foram apenas quatro homicídios de mulheres cujos parceiros eram suspeitos ou autores do crime. As tragédias, nesses casos, não raro, são anunciadas há muito tempo. O tiro que atingiu a cabeleireira Leonice Bueno dos Santos, 27 anos, em setembro do ano passado em um estacionamento de supermercado e a deixou cega de um olho e com parte do corpo paralisado estava engatilhado há quase cinco anos. Data em que o marido dela, Eliseu Pereira dos Santos, lhe agrediu pela primeira vez.
Ela só conseguiu acabar com o relacionamento doentio, recheado de agressões e idas e vindas, cinco anos depois com a traição do marido. Foi aí que as ameaças contra sua vida tomaram força maior. ''Ele ficou pelo menos seis meses ameaçando ela e os filhos'', afirma a irmã, Márcia dos Santos, 32 anos. Temerosa, Leonice mandou os filhos para casa de parentes em uma cidade vizinha e prestou queixa na polícia várias vezes.
Pouco ou nada foi feito. ''Acho que não tive recurso de nenhum lado. No dia que aconteceu chamei a viatura, coloquei o telefone para o policial ouvir ele me ameaçando e fui aconselhada a sair da cidade. Onde já se viu eu ter que sair se quem estava fazendo coisa errada era ele?'', questiona.
Hoje ela se arrepende de não ter seguido o conselho. Baleada na cabeça, Leonice ficou 25 dias na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Venceu a luta contra a morte mas pagou um preço alto. Está há sete meses sem trabalhar, com o corpo paralisado e sem previsão de melhoras a curto prazo.
Pior que a dor dos ferimentos, é a humilhação de não ver a justiça ser feita. O suspeito responde o processo em liberdade apesar de, segundo ela, já ter respondido um inquérito em Sertanópolis também por agressão contra ela. ''Os tiros estão na parede até hoje, só prenderam a arma e fizeram ele pagar umas cestas básicas, enquanto isso minha irmã está aí em uma cadeira de rodas'', afirma Márcia. Sete meses depois da tentativa de homicídio, a vítima ainda não foi ouvida pela polícia.
O advogado de Santos, Marcelo Leal, afirma que seu cliente estaria sendo chantageado pela ex-esposa. Em depoimento, Santos acusou Leonice de fazer programas e que ela ameaçava contar isso para a família dele.

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