Com a possibilidade de uma revisão na lei que autoriza a interrupção da gravidez, especialmente em casos de anencefalia do feto, médicos, igrejas e entidades civis confirmam que a polêmica deve continuar. ''O assunto é delicado'', ressalta a presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher, Roseli de Moraes. Ela conta que nem ali existe um consenso sobre o assunto.
Segundo o Conselheiro Estadual da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) Secção Paraná, Jorge Brandalize, a entidade não interfere na discussão que considera ética e científica. ''Nós só interferimos quando uma lei é inconstitucional'', declara o advogado. Brandalize enfatiza que a atribuição da OAB é apenas fiscalizar o cumprimento da lei. Hoje o aborto é permitido apenas em casos de estupro e quando a vida da mãe corre perigo.
Como cidadão e católico praticante, o advogado se posicionou contra a possibilidade de mudança na lei. ''Mas, como profissional, terei que respeitá-la, caso ela seja aprovada''. A presidente do Conselho discorda. ''A minha opinião, como cidadã, é que a mulher é dona do seu corpo e deve decidir o que deve ser feito ou não'', declara Roseli.
O presidente do Comitê de Bioética do Hospital Universitário (HU), o médico Eduardo Siqueira, afirma que em 100% dos casos de anencefalia o bebê não sobrevive muitas horas após o parto. ''É injustificado levar até o final uma gravidez que não vai gerar vida'', declara.
O médico ainda explica que o anencéfalo não possui o córtex cerebral, necessário para que qualquer criatura possa se relacionar com o mundo. ''Aristóteles dizia que o ser tem três estágios, o vegetativo, o de percepção e o de relação. E o ser humano é caracterizado por passar pelas três fases'', exemplifica Siqueira, lembrando que o anencéfalo não completa os três estágios. Como católico, o médico acredita que Jesus queria a misericórdia e não o sacrifício.
E é aí, quando o aspecto religioso é levado em consideração, que a discussão fica mais complexa. Segundo o mosenhor Bernard Carmel Gaffa, pároco da catedral de Londrina, a Igreja é a favor da vida em qualquer estágio de sua existência. Questionado se essa posição não fere o princípio do livre-arbítrio do homem, Gaffa responde: ''O livre-arbítrio é a capacidade de opção, sem abuso da liberdade. Isso não significa que uma mãe pode matar seu filho de dois anos por que assim o deseja'.'
Para a Igreja Católica qualquer vida deve ser respeitada até que Deus decida tirá-la. ''Desde o momento da fecundação do óvulo já existe uma pessoa em potencial'', argumenta o mosenhor. Já no caso de estupro, Gaffa explica que a mulher deve consultar um médico o mais rápido possível, ''em questão de horas'', para evitar a gravidez. ''Se deixar passar muito tempo, também não concordamos com a interrupção'', afirma.
Já o presidente do Conselho de Pastores da cidade, Édson Oliveira Filho, acredita que a situação da mulher deve ser levada em conta, no caso de anencefalia. Mas ressalta que, caso a lei seja aprovada, é necessário que os diagnósticos sejam muito sérios para que ninguém faça mau uso deles. Exceto pela situação da anencefalia, o pastor se posicionou contra o aborto.
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