Abertura da Central de Transplantes só depende de pessoal
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segunda-feira, 15 de setembro de 1997
Luiz Taques 
Londrina
Paulo WolfgangRotinaMaria da Silveira: Fico assim quatro horas seguidas, três vezes por semana. Não é fácil nãoÉ a máquina que mantém Maria Aparecida da Silveira viva há 17 anos. Máquina é o nome que ela dá ao aparelho de hemodiálise, ao qual ela tem que estar ligada por, pelo menos, três vezes por semana. Se não se submeter ao tratamento, ela morre.
O nefrologista Altair Mocelin, professor da Universidade Estadual de Londrina e diretor do Instituto do Rim de Londrina, afirma que, como Maria Aparecida da Silveira, existem aproximadamente 300 renais crônicos na Cidade e região.
Fico assim quatro horas seguidas em cada vez, num total de 12 horas semanais. Não é fácil não, mas fazer o quê, né?, reclama Maria Aparecida da Silveira. Com apenas 31 anos de idade, Maria Aparecida acaba de ser aposentada. Só que por invalidez. Nos próximos dias, ela já vai receber do Governo o seu primeiro salário mínimo a título de aposentadoria.
Maria Aparecida não tem nenhum dos dois rins. O drama de Aparecida começou aos 8 anos: Tive na infância uma doença chamada pielonefrite, que provoca infecções repetitivas. Eu tinha 14 anos quando perdi o meu primeiro rim, o do lado direito; seis meses depois, perdi o segundo. Quase morri, passei muito mal, fui parar na UTI.
De presente pelo aniversário de 15 anos, o pai, Erondi Silveira, deu à filha um dos seus rins. Mas, três dias após a cirurgia, houve rejeição. Perdi também esse rim. O meu pai, que havia doado o seu, também ficou sem rim. Ele agora vive só com um. As pessoas precisam saber que é possível a gente viver só com um. Meu pai leva uma vida normal. Eu não, pois não tenho nenhum rim. Voltei para a máquina, para meu rim artificial.
Nos dias em que não está ligada à máquina, Maria Aparecida da Silveira dá aulas de linguagem de sinais na Primeira Igreja Presbiteriana Independente.
O que Maria Aparecida e outros renais crônicos mais querem agora é que o Governo do Estado cumpra o prometido há mais de um ano e instale, em Londrina, uma Central de Transplantes, como a que já existe em Curitiba.
Mas precisa ser uma Central que funcione 24 horas por dia. No caso de um acidente fatal, por exemplo, e a pessoa é doadora, é preciso agir rápido, a Central precisa ter agilidade, os funcionários devem ser capacitados, comenta.
A falta de vontade política das autoridades parece ser o principal entrave para a instalação da Central de Transplantes em Londrina.
A coordenadora da Central de Transplantes do Paraná (cuja sede fica em Curitiba), Cristina Von Glehn, afirma que Londrina ainda não tem a sua Central funcionando por falta de funcionários. A Central de Londrina precisaria dispor dos serviços de uma enfermeira, uma assistente social e de dois funcionários administrativos, pois a sede praticamente nós já conseguimos, informa.
Cristina Von Glehn diz que a futura Central de Transplantes de Londrina já dispõe também de duas linhas telefônicas, de três aparelhos de bip, de computador e de geladeira. Mas a ordem do Governo do Estado, segundo ela, é para não contratar mais funcionários.
Terceirizar esses serviços também não dá, pois o Tribunal de Contas proíbe. Tentamos convênios com a Prefeitura de Londrina e com a Universidade Estadual de Londrina, mas esses dois órgãos enfrentam a mesma falta de pessoal como a gente, explica a coordenadora da Central de Transplantes do Paraná.
Na hipótese de um dia entrar em funcionamento, diz Cristina Von Glehn, a Central de Londrina ficaria responsável pela procura de órgãos na Cidade e região.
O presidente da Autarquia do Serviço Municipal de Saúde, Agajan Der Bedrossian, acredita que a implantação de Centrais de Transplantes é de responsabilidade do Governo Federal e dos governos estaduais, e devem se instalar nas capitais, como a que existe em Curitiba. A Central de Transplantes do Paraná, com sede na Capital, funciona desde 1995.
Nas cidades pólos como Londrina, por exemplo, o Estado pode implantar núcleos regionais de transplantes, diz o secretário.
A lei federal 9.434, de 4 de fevereiro deste ano, já sancionada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, prevê que qualquer pessoa é doadora de órgãos, tecidos e partes do corpo humano, a menos que manifeste vontade contrária, o que deve constar em documento de identificação.


