Cambé – Vidros quebrados, portas e janelas danificadas, goteiras, mato alto, paredes pichadas e entulhos espalhados por toda parte. O antigo Hospital Londrina, construído em Cambé, se deteriora a cada dia. O imóvel possui mais de 10 mil metros quadrados e permanece com destino incerto desde o final de 1997, quando os atendimentos foram interrompidos. O imóvel fica próximo ao viaduto do entrocamento das rodovias BR-369 e PR-445. Nas instalações antes utilizadas pelos pacientes e pela equipe médica, há usuários de drogas, cachorros, adolescentes em busca de aventura e até praticantes de airsoft e de paintball, jogos que simulam ações militares em que os grupos utilizam armas não letais. As marcas nas paredes de eventos realizados no local degradam ainda mais o espaço. Já o estacionamento é ocupado por autoescolas que aproveitam as vagas amplas para ensinar a prática de baliza.
"É triste ver isso tudo hoje. A nossa saúde está tão falida. O hospital poderia suprir a necessidade do povo", lamentou um vigilante que preferiu não ser identificado. João (nome fictício) trabalhou no antigo Hospital Londrina logo após o encerramento das atividades. Segundo ele, muitos ex-funcionários queriam invadir as instalações na época para cobrar o pagamento de dívidas trabalhistas. "Os administradores reforçaram a segurança. Foi meu primeiro emprego como vigilante", contou.
Nesta segunda-feira, o vigilante estava no local em busca de munições plásticas para pistolas não letais. Em poucas horas, mais de mil foram recolhidas. "Uso para praticar tiro com arma de pressão", explicou. Em uma viagem pelo tempo, João apresentou cada uma das alas em um passeio pelo interior do antigo imóvel. O cenário de destruição é o mesmo em todos os antigos setores.
A dona de casa Margarida Gonçales chegou a ser atendida pela equipe do antigo Hospital Londrina. "Acho um desperdício estar assim. Era um bom hospital que deveria ter sido reaberto como hospital público", defendeu. Desde 2004, parte do antigo imóvel passou a abrigar uma unidade básica de saúde 24 horas que atende, em média, 200 pessoas por dia. "Aqui já precisava de reforma. É uma pena não que o hospital não tenha voltado a funcionar", comentou Adriana Souza que trabalha em uma empresa de comunicação visual.
De acordo com o prefeito de Cambé, João Pavinato, as instalações do Hospital Londrina pertencem a dois grupos de empresas que administram o patrimônio da Golden Cross, então responsável pela gestão do espaço. "As únicas informações obtidas pela prefeitura dão conta de que aquele local está com vários passivos trabalhistas e previdenciários e que essa questão está na Justiça do Rio de Janeiro. Por conta disso, a avaliação que nós temos é que o valor das dívidas supera o valor do patrimônio", revelou sem mencionar o montante devido.
Logo após o encerramento das atividades, a Prefeitura de Cambé demonstrou interesse em reativar o espaço. "O governo do Estado poderia ter aproveitado para implantar um hospital regional, mas não houve interesse. Agora nós também não temos mais interesse no local. Está muito depredado", destacou Pavinato. Conforme o prefeito de Cambé, a unidade básica de saúde 24 horas deve deixar o espaço em breve. "Na época, foi feito um acordo para que a empresa pudesse ceder parte das instalações ao município e, em troca, a prefeitura isentou a empresa do pagamento do IPTU. Agora nós vamos construir uma nova unidade 24 horas no Conjunto Morumbi com recursos do próprio município. Toda a estrutura da unidade será levada para lá", ressaltou.
Com a desocupação do imóvel, a prefeitura pretende adotar novas medidas. No entanto, Pavinato preferiu não adiantar quais providências serão tomadas. Enquanto isso, boa parte do antigo hospital segue abandonada. "Na unidade básica de saúde, a gente possui vigilantes. Para você constituir um esquema de vigilância em todo o imóvel ficaria muito caro. A estrutura é muito grande", argumentou. A reportagem da Folha tentou contato com representantes de uma das empresas responsáveis pelo imóvel, mas não obteve retorno.

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