Abandono ameaça cemitério histórico
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quarta-feira, 23 de junho de 2004
Vanessa Navarro<br>Reportagem Local 
Junto com os restos mortais de pioneiros alemães, parte da história de Londrina está sendo enterrada no Cemitério do Patrimônio Heimtal (Zona Norte), o mais antigo da cidade. Construído no início da década de 30, o cemitério escancara mostras de abandono e descuido. Não bastasse isso, a Administração de Cemitérios e Serviços Funerários de Londrina (Acesf) ameaça retirar as ossadas de túmulos ''esquecidos'' pelas famílias dos mortos, passando os terrenos para a frente e sepultando de vez alguns dos últimos registros públicos da colonização germânica no município.
O cemitério tem 358 jazigos, de acordo com a Acesf. Por trás de muito mato, em placas de metal enferrujadas ou blocos de concreto desgastados, é preciso forçar a vista para ler as inscrições gravadas nos túmulos mais antigos. O esforço rende um passeio pelo tempo: ali estão enterradas pessoas nascidas há 150 anos. Bhehmer, Svaticsek, Grzelak os sobrenomes remetem à origem européia das famílias que escolheram a terra roxa do Norte paranaense para iniciar uma vida nova no início do século passado e, mais tarde, para abrigar seus mortos.
A importância desses registros é ainda maior se levado em consideração o fato de que Londrina conservou poucas marcas dos colonizadores alemães, apontados pela história oficial como os primeiros a adquirir lotes da Companhia de Terras Norte do Paraná. A Escola Alemã, construída em 1931 no Patrimônio Heimtal e tida como a primeira da cidade, foi descaracterizada, assim como a primeira Igreja Luterana.
O passar dos anos, que transformou o cemitério numa espécie de museu ao ar livre, também resultou no estado precário que o local exibe na atualidade. Muitos túmulos acabaram sendo abandonados por famílias que deixaram o Heimtal.
''A maioria foi embora de Londrina, principalmente na década de 60. As crianças foram entrando em idade escolar, sairam para estudar e não retornaram mais. Restaram poucos representantes daquela época'', afirma Carlos Strass, 70 anos, que tem pais, avô, irmã, tio e sobrinho sepultados no patrimônio, onde reside até hoje.
O último parente a ser enterrado no cemitério do Heimtal foi a mãe de Carlos, a pioneira Olga Strass, falecida aos 92 anos, no final do mês passado. É o exemplo de que algumas famílias ainda valorizam o local, embora lamentem o descaso dos demais. ''Continuamos enterrando ali porque é uma tradição. Mas o cemitério está abandonado, tanto por proprietários de túmulos quanto pela prefeitura. Tinha que fazer um calçamento, plantar um piso de grama. São medidas tão fáceis'', diz Strass.
Elisabeth Grzelak, 51, filha de alemães que vieram para Londrina nos anos 30, também denuncia o descaso do Município com um local de valor histórico. ''Por ser um cemitério onde há tantos pioneiros enterrados, não podia estar tão esquecido. Até chegar ali é difícil, pois asfaltaram o bairro recentemente e deixaram de lado o trecho que dá acesso ao local'', aponta.
O cemitério está cravado em um terreno irregular, em meio a pequenas chácaras e sem qualquer placa nos arredores indicando sua localização. O local passa a maior parte do horário de visitação sem a presença de qualquer funcionário, já que o caseiro responsável trabalha em outros lugares durante o dia.


