Manoel Rodrigues vive no hospital há 35 anos. Vindo de Campo Mourão, ele conta que não tem família e muito menos contato com seus parentes. ‘‘Minha família vive aqui’’, afirma. De seus verdadeiros parentes, sabe apenas que os pais e um dos irmãos morreram. Todos o abandonaram quando descobriram que tinha hanseníase. Na época, a própria Vigilância Sanitária retirou Maneco da família, trazendo a Piraquara e queimando sua casa. ‘‘Antes, o preconceito contra a gente era muito grande. Hoje a coisa está melhor’’, conta orgulhoso, mostrando a casa e o pomar que cultiva.
Reny Naura Munaretto, diretora-geral do Hospital de Dermatologia Sanitária do Paraná, situado em Piraquara, Região Metropolitana de Curitiba, conta que o caso de Maneco repetia-se com frequência no País. ‘‘Hoje, quando a doença é administrável, o paciente pode ficar em casa. Mas muito preferem ficar próximo do local onde foram tratados, por se sentirem mais seguros’’, diz. Perto do hospital São Roque, existem 12 vilas onde vivem ex-pacientes. Algumas dessas casas são sustentadas pela própria igreja.
Mauro FrassonMaria Odolina, arrancada de sua família aos 14 anos, foi obrigada a desistir do sonho de ser freiraUm exemplo dessas pessoas é Maria Luiza Oliveira. Internada no hospital há 25 anos, aos 21 anos, ela perdeu totalmente o contato que tinha com sua família. ‘‘Era mãe de seis filhos e meu marido mudou-se sem dar notícia’’, diz. Sozinha e curada, ela não tinha para onde ir, ficando no hospital. Lá dentro, ela acabou recomeçando a vida com outra pessoa, numa casa próxima. ‘‘Meu segundo marido era maravilhoso’’, lembra. Alguns anos mais tarde, ele morreria e ela ficaria doente - não da hanseníase.
De volta ao hospital, ela prometeu ficar até novamente se casar. O casamento foi realizado ali mesmo nas dependências da Associação São Roque. ‘‘Teve convite, foi tudo filmado, com buquê e tudo’’, conta, que na última quarta-feira foi internada por causa de uma forte gripe.
Morando perto de Maria Luiza, Maria Odolina vive ao redor do hospital, em uma casa que divide com com outra ex-paciente. Religiosa, ela lembra como foi arrancada de sua família aos 14 anos. Na época (1968), ela estudava no colégio Divina Providência. ‘‘Chorei muito, não sabia que o que era Piraquara’’, conta, lembrando que há pouco se mudaram de Irati, onde vivia sua família. Por causa de seu destino, foi abandonada e obrigada a desistir de um sonho - ser freira.
Hoje, cercada de seus santos e anjos, ela cultiva um jardim organizado, florido e bem tratado. Maria Odolina diz que tem uma vida boa, com seus amigos, todos ex-pacientes da doença de pele. ‘‘Hoje é comum ver pessoas de saúde (quem não é hanseniano) nos visitando e trazendo doações’’, conta. ‘‘É bom conversar com essas pessoas’’, complementa Angelina Baggio, que vive no hospital.
Vestindo seu pijama, deitada na cama, ela diz que gosta das festas, das quais hoje pode participar. ‘‘As coisas mudaram muito desde que vim para cá, quando ninguém queria se aproximar da gente, ficando cada um de nós responsável pelo outro’’, lembra Mãezinha, como é conhecida Angelina, que vive no local há 35 anos. Alegre, ela se entristece apenas quando lembra que de sua família conhece apenas a voz, já que nem foto tem. ‘‘Acho que tenho netos e bisnetos, de meu único filho. E devem ser grandes, já que a meninada de hoje é mais rápida e aproveita melhor as coisas’’, diz. (I.R.)

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