‘‘Parece que todos que vão para o Japão acabam esquecendo a gente’’ desabafa a costureira Benedita dos Santos Abe, 45 anos, moradora do Jardim Vale Azul (zona sul) de Londrina. Ela se refere aos cinco filhos e ao marido, Takesi Abe, 59 anos, que foram para o Japão em busca de uma renda melhor. No Brasil ficaram ela e os outros cinco filhos do casal de 16, 15, 12, 11 e 8 anos de idade. ‘‘As únicas que se preocupam com a gente são as duas meninas: Cristiane e Silvana. Os outros nem escrevem dando notícias’’, lamenta.
Abandonada pelo marido que, desde novembro do ano passado não manda mais dinheiro, Benedita passa por sérias dificuldades financeiras. A filha de 15 anos, portadora de deficiência física grave teve de parar de fazer os tratamentos. Sem conseguir pagar o aluguel, ela teve de se mudar para a casa da filha Silvana, que está no Japão com o marido. Teve de priorizar a alimentação dos filhos e manutenção da casa, e deixou de pagar contas que hoje já dobraram de valor, com os juros do atraso.
‘‘Minha filha Cristiane, de 18 anos, até pensou em voltar. Mas decidiu ficar porque se voltasse todos iam passar fome. O que ela ia poder fazer aqui?, diz. Em janeiro, quando a família compreendeu que Takesi Abe não ia mais mandar dinheiro, nem entrar em contato, Cristiane assumiu a responsabilidade de manter a mãe e os irmãos. ‘‘Ela é a única da família que ainda consegue notícias do pai que, há três anos se recusa a falar comigo’’, afirma. Como ela ganha pouco, envia para o Brasil, cerca de R$ 600,00 por mês.
A angústia aumentou em julho, quando Cristiane ficou desempregada durante um mês. ‘‘Graças a Deus ela já está empregada de novo’’, diz. O outro filho, Sérgio Abe, casado, 22 anos, está no Japão com a mulher e dois filhos não teve a mesma sorte. O casal está desempregado desde o início do ano. ‘‘A vida lá é difícil. É tudo muito caro e o que eles conseguem guardar quando estão empregados acabam tendo de gastar quando ficam sem emprego’’, comenta.
Ela conta que para ajudar a mãe e os irmãos no Brasil, Cristiane não sai nem passeia. ‘‘Ela só fica com o dinheiro do aluguel e alimentação’’, afirma Benedita.
No início do ano, um amigo da família encontrou, por acaso, Takesi Abe, em um shopping da cidade de Hamamatsu e entrou em contato com Benedita. ‘‘Ele está bem, arranjou outra mulher e não pretende voltar para a família. Eu já imaginava isto e minha filha também sabia. Só não me contou porque teve medo que eu ficasse doente’’, comenta. Benedita sofre do coração e já teve várias paradas cardíacas. Seu estado de saúde se agravou nos últimos meses, com a falta de recursos para atender às necessidades dos filhos e da casa.
‘‘Não vou mentir para você. Quando ele foi para o Japão nossa relação como casal estava abalada. A gente estava enfrentando muita dificuldade financeira e brigava muito’’, conta. Hoje, ela diz que respeita a decisão do marido, mas não aceita que ele esqueça as crianças. ‘‘Independente da decisão dele, ainda tem cinco filhos para acabar de criar. Não pode simplesmente abandoná-los’’, afirma.
As crianças estão revoltadas com o desaparecimento do pai. Ângela, de 8 anos, só reconhece o pai pelas fotos e Renato de 11 anos, só quer que o pai pague a pensão para a mãe. ‘‘Se ele não quer voltar para a gente, não precisa. Mas não é justo a gente passar necessidade e a mãe ficar nesse sofrimento’’, diz.
Casada há 22 anos com o vendedor Takesi Abe, 59 anos, ela conta que até 15 anos atrás a vida da família era boa. ‘‘Nós vivíamos com tranquilidade. Ele sempre trabalhou com vendas, ganhava bem e eu costurava para fora, melhorando a renda da família’’, conta. Mas o trabalho do marido começou a render cada vez menos, a família cresceu e os gastos também aumentaram. Em outubro de 91 ele decidiu ir para Japão na expectativa de ganhar dinheiro e voltar para montar um negócio seu. Levou com ele o filho de 16 anos e nunca mais voltou.
Benedita Abe diz que já procurou um advogado, mas foi informada de que nada poderia ser feito sem o endereço do marido ou da empresa onde ele está trabalhando. ‘‘As coisas estão difíceis. Não sei mais o que fazer. Está tudo nas mãos de Deus’’, desabafa.

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