A vontade era largar tudo e voltar
A estudante de jornalismo Estela Midori Matsumoto, de 24 anos, colheu os dados para sua primeira reportagem ao mudar-se com a família de São Paulo para o Japão, em fevereiro de 1992. Durante dois anos, de fevereiro de 1992 a março de 1994, ela viveu a realidade dos dekasseguis e seus dramas, planos e realizações. O dinheiro economizado pelos Matsumoto permitiu a compra de um restaurante no bairro Portão, em Curitiba, onde a família reiniciou a vida brasileira.
Atenta observadora, Estela resolveu ser repórter e, a pouco mais de três meses de concluir o curso de jornalismo, já se inicia na profissão, trabalhando no jornal curitibano Hora H. A convite da Folha, ela escreveu um depoimento sobre a experiência de ter trabalhado no Japão, como dekassegui.
Álbum de famíliaCompanhiaEstela e o pai, durante o inverno de 1994, no Japão: Meu sofrimento só não foi maior porque meus pais foram juntosFalar sobre minha experiência como dekassegui renderia pelo menos duas horas de conversa ininterrupta. Uma hora para falar sobre as coisas boas e mais uma para as coisas ruins. É exatamente isso que carrego desta experiência. Difícil é responder à pergunta: E aí, foi bom ficar dois anos no Japão?
É complicado separar os dois lados. O sofrimento envolve não apenas o trabalho braçal, o cansaço físico. A saudade dos amigos e familiares nos faz continuar chorando por muitos meses. É quando se conhece o verdadeiro significado da carência afetiva.
Meu sofrimento só não foi maior porque meus pais também foram junto. Havia dias em que o desespero, a vontade de vir embora batia de uma forma tão violenta que eu tinha a impressão de que não aguentaria por muito tempo. A vontade era largar tudo e voltar. Creio que uma das piores passagens foi esta grande saudade e o enorme preconceito enfrentado numa terra de estranhos. Dificuldade maior foi deparar com uma realidade desconhecida, que mostrou-se completamente diferente de tudo o que eu imaginava.
Álbum de famíliaEncontroMomento de descontração no Japão: Estela, os pais e uma amiga fazem refeição em uma churrascaria de brasileiros, em 1993De uma hora para outra, milhares de conceitos formados pela miscigenação de culturas são desvendados e nem sempre a realidade corresponde às expectativas. Os nipo-brasileiros geralmente se orgulham de carregar uma bagagem cultural que mistura o lado bonito dos hábitos orientais (como o respeito, a educação e a disciplina) com o calor humano e a descontração do povo brasileiro. Então, cria-se uma imagem idealista sobre os japoneses, tecida sempre de elogios, méritos e conquistas.
Não é fácil deparar com a realidade e perceber que, em meio a tantas virtudes, esconde-se também um lado negro, frio e uma distância cultural que separa os dois povos, não apenas por um oceano, mas por um universo de conceitos incompatíveis. E isso aconteceu comigo. Eu sempre tive o povo japonês no melhor dos meus conceitos, cultivei a imagem de uma civilização admirável, quase perfeita. A decepção diante disso é uma das experiências mais duras.
Desconhecer a língua é uma barreira árdua. É triste sentir-se como um verdadeiro analfabeto. Pior que isso, pois além de não saber ler ou escrever, não sabia nem como falar. E experimente ir a algum lugar, fazer compras, por exemplo, sem saber falar japonês. Ninguém se esforça para entender o que a gente quer, e muito menos para se fazer entender. E não adianta querer falar inglês. O esforço continua o mesmo.
O japonês sabe distinguir um gaijin (estrangeiro) entre uma multidão. Mesmo depois que eu aprendi a conversar, não houve como escapar do desprezo em relação aos estrangeiros. Eu tenho cara de japonesa, tenho nome japonês, falo japonês. Mas sou brasileira. Meu modo de andar, de me vestir, de me portar, de agir são típicos de minha terra natal. Aprendi a não pedir informações aos japoneses. Não queria ouvir algo como Está escrito aí, leia. No Japão, a gente aprende a se virar. Aprendi, com um grande esforço, a falar e também a ler e escrever os caracteres mais básicos da complicadíssima gramática nipônica. Ponto para mim. Mas estava longe de ser o suficiente.
O erro também pode estar em nós mesmos. Não se pode esperar que eles nos tratem como humanos, porque poucos deles nos consideram como tal. Respeito, em qualquer lugar do mundo, precisa ser conquistado. No começo, eu achava que deveria dizer sim a tudo, baixar minha cabeça sempre e não discutir sobre minha opinião a respeito do que eu achava errado. E quanto mais eu obedecia, mais era explorada, cobrada e humilhada. Chegou um dia em que eu e minha família resolvemos demonstrar o que éramos e o que sentíamos. Discordamos de algumas coisas, passamos a fingir que não nos importávamos com as críticas, os berros (porque lá, tudo funciona na base do grito), as humilhações. E passamos a trabalhar de cabeça erguida, e sempre unidos, juntos. Tudo isso, claro, sem nunca perder o respeito por eles.
A situação mudou da água para o vinho. Ganhamos respeito. Eles perceberam, afinal, que não éramos simples máquinas de trabalho. Éramos tão humanos quanto eles. A partir de então, a convivência no trabalho passou a ser mais suportável e, quando fomos embora, éramos já muito queridos entre os demais funcionários. Conquistamos o respeito e o pouco de carinho que eles se deixam transparecer.
A verdade é que o povo japonês não é uma pedra de gelo. Ele apenas aparenta ser. Na verdade, todos eles guardam fechados em si os sentimentos. O difícil para eles é demonstrar. Lembro-me que uma das coisas que mais lhes causavam espanto era ver o quanto eu e meus pais andávamos juntos, unidos, sempre conversando, sorrindo. Eles se espantavam de ver minha mãe andando ao lado de meu pai, e este abraçado a ela. De me ver conversando com minha mãe, como se estivesse falando com uma amiga de colégio. Fato inédito para eles.
Uma vez, dei um beijo de agradecimento por uma boneca que ganhei de uma das senhoras que trabalharam comigo. Ela comoveu-se de uma forma que eu nunca tinha visto. Disse que nunca ninguém tinha lhe dado um beijo em agradecimento. Creio que aquela foi a maior demonstração de carinho de sua vida.
Em momentos como aquele, fui percebendo o quanto os japoneses são carentes. A mulher ainda anda atrás do homem, ainda é vista como mera reprodutora após o casamento, ganha um salário menor exercendo a mesma função no trabalho, as pessoas não ousam demonstrar sentimentos, mas tudo isso parecer ser uma fachada, apenas. No fundo, eles querem ser como nós. Querem ter nossa liberdade de expressão, nossa alegria autêntica e natural, nossa união.
É triste saber que a imagem que eles têm dos brasileiros resume-se em Amazônia, índios, mata, floresta. Isso porque é só o que se vê na televisão sobre o Brasil. Como eu trabalhei numa empresa em que os japoneses que lá trabalhavam não tinham uma gama muito grande de informação, tive de ouvir perguntas como No Brasil também tem trovão quando chove?; Tem uva no Brasil?; Você ia de barco para a escola?; Você sabe comer com garfo e faca? Pensei que vocês comiam com as mãos... E presenciei o espanto de uma senhora quando um de meus colegas brasileiros mostrou a ela um cartão postal da cidade de São Paulo. Ela simplesmente não acreditava que se tratava do Brasil.
Mas, enfim, aprendi também que, com suas normas rígidas e a liberdade de expressão trancada a sete chaves, o povo japonês acabou por constituir uma supercivilização em relação ao respeito e à confiança entre todos. Algumas atitudes, hábitos que, para eles são naturais, para nós, brasileiros, são até difíceis de acreditar.
Não existem terrenos baldios. Onde não há construção, existe uma plantação, aberta, sem nenhum muro, cerca, nada. Diante desta plantação, existe uma banquinha, com os produtos dali colhidos, cada um com seu respectivo preço. Não há ninguém para cuidar da plantação ou da banquinha. Junto aos produtos, duas caixinhas: uma que se parece com um cofrinho, para que se possa colocar lá o dinheiro para pagar o produto que se deseja comprar. Outra aberta, com várias moedas, para que o próprio comprador pegue seu troco, se for preciso. Repito: não fica ninguém tomando conta dessa banquinha.
O trânsito de bicicletas é intenso. A grande maioria das pessoas utiliza esse meio de transporte. Cada bicicleta tem uma cestinha na qual costuma-se carregar bolsa, blusas, objetos pessoais. Ao parar em um supermercado, por exemplo, o cidadão deixa sua bicicleta sem trava e com todos os seus pertences lá fora. E, quando volta, encontra tudo lá, intocado. Caso alguém vá de carro, pode muito bem deixá-lo aberto, sem se incomodar.
Meu pai comprou um carro e passou por uma situação levemente constrangedora. Feita a negociação, meu pai entregou o dinheiro ao lojista e perguntou pelo recibo. O atendente, que era o dono da loja de veículos, mostrou-se espantado e explicou ao meu pai que lá no Japão, não era necessário um papel assinado para comprovar aquele pagamento. Lá, a palavra de um homem vale muito mais do que sua assinatura.
As crianças não têm dificuldade em atravessar as ruas mais movimentadas. Elas têm autoridade suficiente perante os motoristas para fazerem parar qualquer trânsito. Tudo o que elas precisam fazer é levantar a mão quando desejam atravessar. Tal qual um gesto de um guarda de trânsito, a mão da criança é um sinal para o motorista parar. E, claro, sempre nas faixas de pedestre.
Sendo assim, chego à conclusão de que ter sido dekassegui foi uma das experiências maiores de minha vida. Ainda tive uma sorte maior do que muitos colegas, que alojaram-se em apartamentos com um quarto, uma minicozinha e um microbanheiro. Desses apartamentos em que não se pode sequer tentar receber amigos porque nunca vão caber mais do que três pessoas. O nosso apartamento tinha ainda uma pequena sala. Talvez porque fomos em família. Presenciei terremotos, furacões, neve e tudo mais que este país tropical nunca vai nos deixar passar.
Mas, conheci um outro mundo. E conhecer um outro mundo, um outro povo, sempre significa uma bagagem cultural muito grande a ser acrescentada. Indo para o Japão, também aprendi a amar o Brasil, vê-lo com outros olhos, sentir mais orgulho de ser brasileira. E erra quem pensa que no Japão é fácil juntar dinheiro. A verdade é que o salário não é tão alto. É compatível, é suficiente para se viver confortavelmente lá. O custo de vida é tão alto quanto o salário. Por isso, é necessário saber usar bem esse dinheiro. Quem vai com a intenção de guardar economias não pode se dar ao luxo de querer viver bem lá.
Ao voltar daquela terra tão distante, daquele povo tão diferente, hoje paro para refletir. Valeu a pena? O dinheiro conquistado com muita garra e muito trabalho melhorou a vida material, mas será que corresponde ao sofrimento, às humilhações e, de certa forma, às mudanças que certamente ocorreram em minha própria personalidade? Todos os que retornam desta batalha acabam adquirindo uma certa frieza, uma amargura, em função de toda a mágoa acumulada pelas humilhações passadas. E esta é uma lembrança viva, constante, que se vai refletir pelo resto da vida.
Por isso, ir para o Japão exige muita cautela, considerações e muita, muita tolerância. E vontade de lutar, de vencer. Gambate é a expressão utilizada pelos japoneses que significa força, coragem!. E é esta a palavra que deve estar em nossas mentes a cada momento de fraqueza, a cada instante em que se tem a impressão de que o mundo está desabando sobre nós. O medo faz parte da experiência, assim como o fascínio pelo desconhecido. Mas o gratificante é poder voltar para casa. E, a partir de então, saber perceber melhor os valores das coisas menores da vida. E notar que existem coisas que nenhum dólar ou iene no mundo vai poder pagar um dia.





