Milton DóriaBalançoDom Albano Cavallin: ‘Visita do Papa representa mais que um ano de trabalho de todos os padres e freiras’ Arcebispo de Londrina há cinco anos, Dom Albano Cavallin, 67 anos de idade, esteve com o Papa João Paulo 2º durante a visita ao Rio de Janeiro, no final da última semana, a exemplo do que ocorrera nas duas visitas anteriores do chefe mundial da Igreja Católica ao Brasil. Cavallin se encontrou com o Papa - que tem 77 anos de idade e está no cargo há 20 anos - em quatro momentos, entre os quais a reunião do Congresso Teológico-Pastoral, que reuniu dez cardeais, 500 bispos e duas mil pessoas vindas de 115 países para discutir questões ligadas à família. Na avaliação do arcebispo, a Igreja Católica - que passa por um momento difícil de adaptação ‘‘à modernidade’’ e pela perda de fiéis para seitas e religiões concorrentes - ganhou ânimo novo e se fortaleceu com a rápida passagem de João Paulo 2º pela capital carioca. De volta a Londrina, o arcebispo fez à Folha o seguinte balanço sobre a visita do Papa.
Folha - Qual o significado da vinda do Papa ao Brasil para a Igreja Católica?
Dom Albano - É uma verdadeira dádiva de Deus. Aliás, o Papa é um empregado, um representante de Jesus para este tipo de trabalho de pregação pelo mundo. A presença dele, ainda que apenas por três dias no País, representa mais, em termos de importância e retorno para a Igreja, que um ano inteiro de trabalho de todos os padres, freiras e bispos brasileiros. Através do meios de comunicação, ele falou diretamente com toda a população. O resultado, ainda que difícil de se medir, será certamente um grande crescimento da religiosidade, da fé cristã e da unidade católica. Ele trouxe um ânimo e um entusiasmo novos para todos nós. O Papa é o pai visível da família católica, e é sempre bom tê-lo por perto.
Folha - A Igreja Católica tem perdido muitos seguidores para outras seitas e religiões evangélicas e protestantes nas últimas décadas. O Papa está preocupado com este fato? Qual a orientação dele neste sentido?
Dom Albano - Existem no mundo cerca de 85 mil religiões diferentes. Elas nascem todas as semanas, da divisão delas próprias. A Católica prossegue unificada, igual em qualquer país do mundo, por mais diferente que ele seja. Também é verdade que temos perdido seguidores, e isso é ruim. Mas esta não é a nossa maior preocupação no momento. Estamos mais preocupados com os católicos relaxados, que usam o nome da Igreja mas não dão o testemunho diário de sua fé. Ser católico não é só ir à missa aos domingos. É praticar o catolicismo na sua integralidade. Precisamos entender as razões dessas perdas de seguidores e buscar soluções para elas.
Folha - Quais são as principais causas da perda de seguidores para a concorrência?
Dom Albano - Elas são muitas e de caráter psicológico, econômico-social, de discurso, de prática do Evangelho. Vamos enumerar as principais: 1ª) Nosso atendimento esteve secularmente baseado na figura do padre, do pai - padre de cada comunidade, cada cidade. A população cresceu muito, e este modelo ficou ultrapassado, não responde mais às necessidades dos fiéis. O padre não dá conta de atender a todos os necessitados. Estamos tentando mudar isso, este modelo, mas a mudança leva décadas para ser implementada com sucesso. 2ª) Questões sociológicas. O momento econômico-social de grande parte da população é muito difícil, com o desemprego, falta de moradia, baixos salários, falta de escolas, mau atendimento de saúde etc. O povo busca respostas imediatas, para ontem. Aí, muitas vezes, vai atrás do discurso fácil, do conforto oral, de curas espetaculares. A Igreja Católica - apesar de continuar com a maior infra-estrutura de assistência social com hospitais, escolas, asilos e creches -, de umas décadas para cá, tem trabalhado mais nas causas do que nas consequências da crise, da pobreza. E isso só dará resultado a longo prazo. 3ª) Deus, na cidade, não tem netos. A Igreja Católica, que agrupou por décadas os pais e filhos, não está sabendo conquistar os netos nos grandes centros urbanos. Estamos tendo dificuldade para competir com as rápidas mudanças da chamada modernidade. Os jovens - em grande número na população brasileira - buscam o novo, o desconhecido, a aventura. E, por isso, muitas vezes estão procurando outras religiões. 4ª) Falhas no nosso sistema de comunicação interna. Faltam canais que garantam a comunicação entre os vários setores da comunidade cristã. Como o número de fiéis aumentou muito com o crescimento da população, foi diminuindo a afetividade entre o padre e os fiéis. Isso é ruim e afasta as pessoas. 5ª) Problemas na comunicação com a comunidade externa, com o restante da sociedade. Falta de diálogo produtivo entre a Igreja e os formadores de opinião.
Folha - A visita do Papa coincidiu com a tramitação no Congresso Nacional do projeto que regulamenta alguns casos de aborto legal. Houve uma declaração da primeira-dama Ruth Cardoso - que defende a aprovação do projeto - de que a vinda de João Paulo 2º em nada mudaria a posição dos parlamentares brasileiros, de que ‘‘o Papa representa zero de influência no Congresso’’. Esta declaração, na véspera da chegada do Papa, irritou a Igreja?
Dom Albano - Irritou, porque o assunto diz respeito ao direito à vida, é muito sério para ser tratado com chacotas. No início, fiquei surpreso, pasmo mesmo, sem saber o que comentar. Depois pensei: se a dona Ruth, uma antropóloga importante, diz que o Papa - um chefe de Estado, uma autoridade político-religiosa de importância mundial - significa zero, então eu também dou a ela, por este comentário, nota zero. Mas passados alguns dias, até que compreendi a justificativa da primeira-dama. Ela explicou que quis dizer que o Papa não tinha voto pessoal no Congresso. Tudo bem, não quero polemizar com a dona Ruth, o assunto está esgotado. Mas foi desrespeitoso e pegou muito mal o comentário da esposa do presidente da República.
Folha - A Igreja Católica mantém-se contrária a todo tipo de aborto?
Dom Albano - Por princípio, sim. Aborto é morte. Estão querendo legalizar a prática do aborto no País. A resposta da Igreja a este projeto é: nem tudo que é legal é justo. Deus é contrário a qualquer tipo de morte, ainda que de um feto. O aborto é contra a lei maior, que é a lei da vida. Vemos por aí, defendendo a lei do aborto, as mesmas pessoas que são contra a lei da pena de morte. Há neste fato uma grande incoerência. Os mesmos que defendem a vida de criminosos às vezes perigosos e julgados, defendem a morte de inocentes que sequer vieram à luz. A Igreja é contra o aborto e contra a pena de morte; é contrária a tudo que impede a vida. Temos que ter coerência e respeitar as leis de Deus. Não mandamos na vida a ponto de impedi-la.
Folha - O aborto não é aceito pela Igreja sequer em caso de estupro?
Dom Albano - Nem neste caso. Deus não aceita a morte por nenhum motivo. Todo aborto provoca a morte e significa o egoísmo das pessoas sobre a vida. Eu sei que é antipática esta posição, porque parece que a Igreja quer punir a mulher estuprada e grávida. Mas não é isso. É uma questão de valorização da vida. Muitas freiras foram estupradas durante a guerra na Bósnia (Europa). Elas mantiveram a gravidez e tiveram os filhos. Temos que tomar providências firmes e duras contra os estupradores, presentes entre os ricos e pobres. Tem muito filhinho de papai que se acha no direito de estuprar suas empregadas. Mas essas providências não incluem a liberação do aborto, que levaria à morte de um ser humano, pecado muito maior. O Papa disse na missa do Maracanã: ‘‘Que o crime abominável do aborto, vergonha para a humanidade, não condene os concebidos à mais injusta das execuções.’’
Folha - Aliás, o Papa retomou antigos temas e condenou também a infidelidade e o divórcio.
Dom Albano - É verdade. São temas antigos mas não velhos, porque as verdades verdadeiras não envelhecem nunca. O Papa e a Igreja Católica não têm medo de manter a defesa da indissociabilidade do matrimônio e praticar um discurso que, para muitos, pode parecer tradicional e moralista. Tradicional sim, moral sim, mas não moralista. O dono do casamento é Jesus, e foi ele quem disse: ‘‘O que Deus uniu, o homem não separa.’’ A Igreja tem tribunais internos para declarar a nulidade do casamento que não existiu na prática. Mas isso é diferente do divórcio que está aí colocado como legal. A Igreja tem consciência das dificuldades da vida a dois. Mas o divórcio que vemos por aí, na maioria das vezes, é filho do egoísmo das pessoas. Em grande parte, ele é fruto do machismo que impera na sociedade. Ele é fabricado, forjado em benefício dos homens como mais um instrumento de opressão sobre as mulheres. E a infidelidade é igualmente reprovável, porque leva ao fim da unidade no casamento, ao fim do amor, leva ao egoísmo e ao divórcio.
Folha - Estas posições do Papa não podem ser consideradas ultrapassadas no atual estágio da humanidade, tão próxima do 3º milênio?
Dom Albano - Há quem as considere mesmo atrasadas, moralistas, antiquadas. Mas precisamos refletir sobre elas com profundidade. O Papa João Paulo 2º não é só um líder religioso, mas também um importante personagem político de nosso tempo. É necessário quase que separar estes dois lados. Em termos políticos - na defesa da justiça social, no combate às desigualdades, na defesa das democracias, das relações negociadas entre os diferentes povos e governos - o Papa tem uma posição bastante progressista, como poucos tiveram antes dele. Agora, quando a questão é moral, familiar, religiosa e de comportamento - até em consequência da atual sem-vergonhice reinante - o Papa é duro, não dá espaço para aberturas e modernices. Ele mantém o tradicional discurso católico, sem medo de ser rotulado de atrasado, de moralista, de tradicionalista. Rótulos não têm força para calar o Papa, que está acima deles. Neste momento em que parece prevalecer a filosofia barata do prazer, temos a obrigação de prosseguir divulgando e defendendo os princípios morais que sustentam a Igreja Católica. Fora disso, é o caos.

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