Maria (nome fictício) conta com naturalidade a sua sina que já dura alguns anos. A história dela e de seus meninos tem no enredo drogas, assaltos e uma dolorosa expulsão da casa que ela penou para conseguir. Trata-se de uma das várias famílias londrinenses que foram obrigadas a deixar o lar por conta de ameaças de bandidos nos últimos meses. O medo de registrar queixas de quem é ameaçado não permite a confecção de estatísticas. Mas profissionais que trabalham com vítimas de violência na cidade não pensam duas vezes para afirmar que a situação está se tornando corriqueira.
Os filhos de Maria, de 13 e 17 anos, estão cumprindo medidas socioeducativas. Na ficha deles constam diversos crimes, como roubo, furto e tráfico de drogas. Mesmo assim, a mulher, que está desempregada, ainda nutre o sonho de conseguir um teto para poder morar com seus meninos tão logo eles saiam dos centros de socioeducação da cidade.
Um dia este sonho já foi realidade. Ela chegou a ter um bom lar, que a abrigava junto com os dois garotos e as suas duas filhas. Uma casa construída com capricho pelo pessoal do Projeto Onde Moras. ''Meu atual marido mobiliou toda a casa. Estava um 'brinco''', recorda. Até que um belo dia ela foi ''convidada'' pelos traficantes que controlam as ''bocas'' do bairro a deixar a casa. O convite era uma punição por conta dos deslizes do filho mais velho, que andou encrencando com os criminosos e roubou o carro de um conhecido deles. ''Já deixaram bem claro. Se eu ou alguém da minha família voltar para a casa, é morte'', resigna-se.
Agora, ela enfrenta um dilema. Morando em uma casa que pertence ao seu atual companheiro, que não é o pai dos meninos, não pode receber os filhos quando eles voltarem. ''Meu marido não os quer aqui. Eles já aprontaram demais.'' Por outro lado, já recebeu um recado bem claro da promotoria da Vara da Infância e Juventude: como mãe dos adolescentes é responsável por eles e tem que aceitá-los em casa.
''Por isso estou desesperada atrás de um emprego para conseguir alugar uma casa e viver com eles. Sou honesta, nunca cometi nenhum crime, mas pago pelos atos dos meus filhos. Muitos me dizem que a culpa disso tudo é minha, pois não eduquei os moleques. Mas não é assim, não sei como eles foram para o crime. Veja as minhas meninas, são muito educadas e frequentam direitinho a escola'', desabafa.

Dívidas com traficantes
Fátima (nome fictício) enfrenta a mesma dor de Maria. Tem o filho em um dos centros de socioeducação de Londrina e já mudou até de município e de Estado por conta das peripécias do adolescente de 15 anos, também envolvido com drogas. Mas ela bate no peito e afirma: ''A culpa disso tudo é minha. Não soube educá-lo. Papariquei muito o meu filho, talvez por ele ser o caçula e por ter perdido o pai. Deu nisso'', lamenta.
Quando começou a perceber a rebeldia do menino, Fátima resolveu se mudar para acabar com as más companhias. Fez isso uma, duas, três... seis vezes. Mas em cada nova casa, novos envolvimentos com o crime. ''A minha ficha não caía. Eu trabalho o dia inteiro. Só chego em casa às sete da noite. No Brasil, só existe escola em um período. No restante do dia, o adolescente fica na rua. Quando os pais trabalham, sabe-se lá o que um garoto nessa idade fica aprontando. Só fui cair na real no fim de 2008, quando cheguei em casa e senti falta da televisão...''.
Pouco tempo depois de trocar a TV por drogas, o rapaz foi detido por agredir a irmã. Dias atrás, dois homens bateram no portão de Fátima. Querem mais de R$ 200 por conta de dívidas que ele tem com os traficantes. ''Eu não tenho esse dinheiro. Então, com a maior naturalidade do mundo, disseram que a vida do meu menino será o pagamento. Esse é o serviço deles. Pretendo conseguir um internamento para curá-lo do vício. Depois, vamos sumir daqui.'' Será a sétima mudança de Fátima, praticamente pelo mesmo motivo de todas as outras.

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