A interferência do homem no caminho dos rios quase sempre deixa consequências nefastas como poluição, assoreamento, morte de espécies, subtração de plantas. Ocorre que, por vezes, os rios também atravessam o caminho do homem, causando prejuízos e confirmando a velha lei da física: para toda ação, existe uma reação.
Transformado em depósito de entulho, o Ribeirão Lindóia reagiu. Durante as últimas chuvas, ele transbordou na altura do Conjunto Ouro Verde (Zona Norte), alagando a ponte da Avenida Winston Churchill. Parte da cobertura asfáltica ficou danificada. Imóveis próximos às margens do rio também foram atingidos. ''Na chácara do meu pai e na do vizinho, a água derrubou o muro e entrou. O criame de peixes que ele mantinha foi arrastado, meu pai ficou desolado'', contou o gestor de meio ambiente Cláudio Mendes, morador do bairro.
Para Mendes, os transtornos estão diretamente relacionados à degradação do ribeirão. Ele cobrou a utilização dos milhões em dinheiro doados ao poder público pelo Pool de Combustíveis, como compensação pelo vazamento de 100 mil litros de óleo no Ribeirão Lindóia em 2002. Parte desse dinheiro foi aplicado em um diagnóstico de toda a Bacia do Rio Jacutinga - da qual o Lindóia faz parte - realizado por pesquisadores da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e concluído em 2004.
A pedido da FOLHA, o professor de Microbiologia Ambiental da UEL Marco Antonio Nogueira, que foi coordenador de campo do Projeto Jacutinga, revisitou o trecho do Lindóia onde houve o transbordamento. A primeira constatação é de que pouco mudou no local desde o estudo. ''O rio está assoreado. Só nesse trecho podemos ver pedras de construção, fitas de vídeo, garrafas pet, até um revestimento de geladeira. É inadmissível que as pessoas continuem atirando lixo nos fundos de vale com todo o sistema de coleta disponível'', criticou.
O professor explicou que o acúmulo de sedimentos sólidos obstrui o caminho que o rio tem para fluir e pode contribuir para que transborde durante chuvas fortes. ''Os restos de poda que o pessoal joga por aqui também vão ficando enroscados e atrapalham o fluxo da água'', observou. Pelas marcas de terra deixadas na ponte e na vegetação do trecho, Nogueira acredita que a água tenha subido de dois a três metros de seu nível normal.
Morador bem próximo ao ribeirão, o agricultor Valdomiro Laurindo também expressou, a seu modo simples, a falta de consciência dos cidadãos. ''Lá na cabeceira eles vão jogando tranqueira, lixo, até gato e cachorro morto, e tudo isso vai empatando o rio. Mas vai falar isso com quem?'', resignou-se. Ele lembrou que há cerca de seis anos os moradores organizaram um abaixo-assinado para pedir a revitalização do ribeirão, sem sucesso.
Cláudio Mendes acredita que a prefeitura deveria fazer sua parte. ''Quando fizeram o Lago Norte, abastecido pelo Lindóia, deveriam ter desassoreado toda a extensão do ribeirão. É um rio em que muita gente já brincou, mas que hoje está tão abandonado que as pessoas nem o respeitam mais como rio'', lamentou.

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