A vida segue para os 'heróis'
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segunda-feira, 21 de setembro de 2009
Wilhan Santin<br>Reportagem Local 
Como faz todos os sábados às 14h30, o entregador Daniel Cardoso Pedroso, 21 anos, chegou ao parque gráfico da Folha de Londrina, na Avenida Dez de Dezembro (Zona Sul), para esperar na boca das rotativas os primeiros exemplares da edição de domingo do jornal.
Enquanto isso, o coletor de lixo Cícero Roberto Prudêncio, 32, e três companheiros de serviço, Júlio César Michelassi, 34, Ângelo Márcio da Silva, 33, e o motorista Cícero José Monteiro, 52, comemoravam o final da jornada de trabalho que havia começado às 7 horas. O grupo seguia para a garagem da empresa responsável pela coleta do lixo depois de descarregar as sobras dos londrinenses no aterro controlado da cidade.
Chovia forte e Daniel, rapaz de riso fácil, feliz pelo casamento agendado para o mês que vem depois de três anos de namoro e um de noivado, avistou um jato d'água e ouviu um estrondo na avenida. Não teve dúvidas, correu para lá.
Também não tiveram dúvidas os homens que seguiam no caminhão de lixo. Gritaram ''para, para, para'' quando viram que um veículo Gol havia caído no canal que fica no meio da Dez de Dezembro, pelo qual passa o Córrego das Pombas, um tímido fluxo de água que há 50 anos, quando a cidade ainda não era de concreto, fora o predileto das lavadeiras. Mas naquele dia a chuva transformou o córrego em enxurrada.
Dentro do carro, o motorista, de 26 anos, que perdeu o controle depois de aquaplanar na água que se acumulou na pista, e suas duas filhas de oito e cinco anos de idade.
De repente, os garis e o entregador que nem se conheciam iriam virar notícia no país em que as maracutaias e atos secretos ocupam bom espaço nos noticiários. Bastou alguém providenciar uma corda para Daniel cair na água e começar o processo de resgate. O coletor Cícero foi junto, seu colega Júlio César também enquanto Ângelo ajudava a segurar a corda que não deixava que os heróis também se tornassem vítimas.
Os homens quebraram vidros do carro, entraram dentro dele e tiraram os ocupantes - já desacordados e com as cabeças dentro da água - do perigo maior. Logo os bombeiros chegaram e completaram o serviço. Na era da tecnologia digital, teve quem gravasse tudo em vídeo e as cenas de quatro trabalhadores comuns que ajudaram a salvar vidas se espalharam.
Ontem, todos eles estavam de sorrisos largos, felizes, e de volta à rotina. Com sua moto, Daniel encarou a chuva para levar o jornal aos assinantes. Com pausas para conceder entrevistas. ''Não sou herói. Na verdade, Deus é que esteve ali todos os momentos. Ele não deixou o carro cair capotado na água, fez com que alguém aparecesse com uma corda e outro alguém com uma chave de roda para quebrarmos o vidro'', simplificou o rapaz, que sonha em ter sua casa própria e que fez questão de voltar para o serviço depois do salvamento concluído.
Hoje, o entregador será homenageado pela diretoria da FOLHA e pelos colegas de serviço pelo ato de coragem. ''Não havia nenhuma segurança de que o carro não pudesse rodar e mesmo assim ele pulou na água. Foi um grande ato'', destacou o superintendente da Folha de Londrina, José Eduardo de Andrade Vieira.
Os coletores também encararam a chuva e 60 km de ruas para realizar o serviço de deixar a cidade mais limpa. Acostumados a trabalhar em equipe, eles ressaltaram que o espírito de grupo foi fundamental para que pudessem ajudar a salvar vidas. ''Somos parceiros. Quando vi o Cícero pulando na água e entrando no carro inundado pulei também, pois tinha que ajudá-lo. Nós já éramos muito felizes, agora somos mais ainda'', destacou Júlio César, o mais extrovertido do grupo.
O condutor do carro e as duas crianças chegaram a ser hospitalizados, mas já receberam alta e passam bem. Ontem, o motorista atendeu à reportagem, mas não quis conceder entrevista. No entanto, a mãe dele e avó das meninas, Neuza Verez, agradeceu em nome da família. ''Já agradeci pessoalmente ao Daniel e também quero encontrar os coletores. Mal tenho palavras para dizer a eles o que sinto''.


