A vida no residencial das más notícias
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sábado, 14 de março de 1998
Benê Bianchi 
Milton DóriaSó a taxa libertaO Residencial Jardim das Américas: quem atrasa pagamento de condomínio tem dificuldades até para subir com compras de supermercadoO Residencial Jardim das Américas, concluído em 1992 e ocupado a partir de 1994, localizado na zona norte de Londrina, com 1.424 apartamentos divididos em 89 blocos, tem sido palco constante de notícias ruins. A última envolveu a morte de Elza Maria Melo, 46 anos.
Ela morreu momentos depois de verificar que o apartamento onde morava estava ocupado por outra família. Parte do mobiliário e todos os documentos referentes ao imóvel haviam desaparecido do local.
Aparentemente, Elza foi vítima de um ataque cardíaco, na sala do apartamento. O corpo foi encontrado por seu marido, Augusto Mendes da Silva, que tentava negociar com a administradora do condomínio, a Mendes Neto, uma solução para o problema. O motivo da morte está sendo investigado pela polícia.
A morte de Elza não foi um fato isolado na história do Residencial das Américas. Desde que foi ocupado, há cerca de quatro anos, muitos casos já foram noticiados pelos jornais: despejos e invasões dos apartamentos de pessoas que estavam com prestações ou condomínios atrasados.
Outros fatos, no entanto, são narrados pelos moradores, que comparam o local a um campo de concentração, com regras extremamente rígidas, impostas pela administradora Mendes Neto. São histórias de humilhação e desrespeito à Constituição, que garante o direito de ir e vir a todas as pessoas. O dia-a-dia só é suportado, segundo os moradores, porque eles temem perder o que já investiram nos imóveis ou porque as famílias não têm para onde ir.
A reportagem da Folha esteve no Residencial na tarde da última quinta-feira. Para entrar no local, a moradora que recebeu a reportagem pediu que fossem guardados blocos de anotação e caneta, para não despertar a curiosidade dos seguranças do local. As entrevistas foram feitas dentro dos apartamentos e, na passagem de um para outro, todo o material de trabalho tinha que ser guardado. Se eles percebem que é repórter, vêm querer saber do que se trata, justifica ela. Alguns moradores se negaram a dar nomes, temendo represálias. Outros não se acanharam.
Aqui a gente se sente preso, se sente o tempo todo vigiado. A queixa é comum a todos os entrevistados. A moradora Maria do Socorro está no residencial há cerca de três anos - metade deste tempo sem pagar o condomínio. Ela é separada do marido e está desempregada.
Uma das primeiras histórias relatadas por Maria do Socorro ocorreu há quase dois anos. Eu fiquei com um Chevette velho como parte de uma dívida e não pude colocar na garagem porque não tinha o selo fornecido pelo condomínio. A síndica pediu para eu ir até o escritório da construtora para pegá-lo, mas na verdade ela queria me humilhar porque estava com o condomínio atrasado.
Recentemente, ela passou por uma situação semelhante. A moradora foi proibida de guardar em seu apartamento um carrinho de cachorro quente. Já tinha guardado o carrinho outras vezes, mas eles escolheram um domingo que chovia bastante, já era mais de 23h30, para me proibir de entrar com ele na minha casa. Precisei chamar a polícia, porque não podia deixar o carrinho na rua. Hoje, ela guarda o carrinho num bar próximo ao condomínio. Ela diz que não sai do apartamento porque, se isso ocorrer, a mudança tem que ficar.
A lei não serve apenas para o carrinho de cachorro quente. Os moradores relatam que quem está com o condomínio atrasado também não pode estacionar carro lá dentro e não pode subir com móveis novos ou usados. Até para entrar com simples compras de supermercados há problemas: esses moradores precisam provar que não há nada de maior valor nas sacolas. Depois da morte de dona Elza, eles resolveram deixar uma moradora subir com móvel, mas isso foi exceção, conta Viviane Cristina Santos Fonseca. Aqui, nem compra a gente pode descarregar se o carro não tiver o selo que a administradora fornece para quem está pagando o condomínio.
O morador Anderson Rogério dos Santos conta que passou por uma situação constrangedora, recentemente, para levar a seu apartamento um guarda-roupa usado. Porque estava com três condomínios atrasados, tive de ir ao escritório da administradora e ameaçar chamar a polícia, senão eles não me deixavam subir com o guarda-roupa.
Eles não dão sossego. Falamos que a firma que meu marido trabalhava tinha falido e mesmo assim eles ligaram lá para cobrar a conta da dona da firma. Sem contar que não param de ligar para a casa da gente, diz a mulher de Anderson, Sandra dos Santos. Segundo ela, os administradores acham que, se a pessoa pode comprar alguma coisa, deve também poder pagar o condomínio.
As histórias são muitas. A moradora Fátima Silva comprou uma pia para sua cozinha - muitos apartamentos foram entregues sem acabamento - e, com dois meses de condomínio atrasado, teve que deixar o bem na portaria. Eles tiveram a capacidade de ligar para a loja vir buscar a pia.
Edna Aparecida de Oliveira, a primeira moradora a consolar Augusto Mendes da Silva, após a morte de Elza Maria, diz que está pagando em dia e tem poucos problemas no condomínio. Mas para quem está atrasado, é um absurdo. Eu vejo o que eles fazem e estou muito insatisfeita por morar aqui.
Graziela Maria Labigaline diz que desde que se mudou para o residencial tem problemas com a administradora. Aqui é um cadeia. Até binóculos eles usam para ver o que está acontecendo dentro da sua casa.
Outra reclamação dos moradores é com relação às multas cobradas. Por qualquer coisa eles multam, fala Graziela. A moradora Silvana Cardoso diz que seu grande problema no residencial são as crianças. Ela mora com um filho e uma sobrinha, de 5 e 8 anos, respectivamente. Já tive de pagar multa porque minha sobrinha quebrou um galho de árvore. As crianças não podem andar de bicicleta nem brincar de bola aqui dentro.
Silvana Cardoso conta que teve de pagar R$ 30,00 pelo uso do extintor de incêndio, num dia que pegou fogo em seu fogão. Fátima Silva recebeu multa de R$ 15,00 porque um filho apertou vários botões do elevador.
Em 1996, o morador Orlando Gomes de Sá viveu um caso semelhante ao que ocorreu com o casal Elza e Augusto da Silva. A advogada do rapaz e de outros cerca de 500 moradores do Residencial Jardim das Américas, Rosângela Lie Miya, relata que ele havia saído para fazer compra num supermercado e, quando retornou, a administradora havia retirado todos os seus móveis do apartamento. O caso foi arquivado. Ele desanimou e foi tentar a vida em Curitiba, conta a advogada.
Rosângela Miya diz que cerca de 500 moradores estão pagando o aluguel dos apartamentos em juízo. Ela já entrou com pedido de alvará judicial para cerca de 20 moradores. O objetivo é que eles tenham liberada a entrada de móveis e outros bens em seus apartamentos.
Anderson Rogério dos Santos cobra providências das autoridades para coibir o tipo de administração imposta pela Mendes Neto. A gente não tem medo, denuncia a situação, mas ninguém fala nada. Acontecem coisas escabrosas aqui e depois de dois meses as pessoas se esquecem. Queremos que alguém tome uma providência.


