A vida na segurança máxima
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sábado, 12 de setembro de 2009
Wilhan Santin<br>Reportagem Local 
Catanduvas - Em seus 12,6 mil metros quadrados de construção, a Penitenciária Federal de Catanduvas tem 208 celas de seis metros quadrados distribuídas em quatro alas de vivência e outras 12 celas destinadas aos presos que cumprem sanções disciplinares ou que estão em Regime Disciplinar Diferenciado (RDD); no momento dois detentos: Márcio Santos Nepomuceno, o Marcinho VP, e Márcio Robert Calandrini, bem menos famoso e oriundo do Estado do Pará.
No RDD, os presos não saem das celas. As duas horas diárias de banho de sol que todos têm direito são feitas dentro do próprio cubículo, em um espaço de aproximadamente dois metros quadrados reservado para isso e protegido no alto com barras de concreto para evitar fugas. Não há visitas.
Pela pequena janela da porta, que só abre por fora, um dos agentes que acompanhavam a equipe da FOLHA comentou com Marcinho VP que jornalistas estavam por ali e questionou se ele não gostaria de conceder uma entrevista. ''Não quero, não, senhor. Quem gosta de jornalista é ator'', respondeu o detento, em tom descontraído.
Apenas 19 presos trabalham, costurando bolas de futebol do programa do governo federal ''Pintando a Liberdade'' e ganham com isso, além de ocupação, a remissão de pena: um dia a menos de cadeia para cada três trabalhados. A dificuldade de acomodar os internos em turmas impossibilita que mais gente costure bolas. Seria impossível, por exemplo, deixar no mesmo ambiente o ex-policial militar e acusado de chefiar a maior milícia do Rio de Janeiro, Fabrício Fernandes Mirra, com algum traficante.
Já os cursos profissionalizantes a distância do Serviço Nacional da Indústria (Senai), transmitidos por meio de televisão, atendem a mais presos. Em torno de 300 internos que já passaram pela penitenciária saíram com um diploma debaixo do braço. Educação regular ainda não há. A previsão é que, para o ano que vem, comece a funcionar o sistema de Educação para Jovens e Adultos (EJA) na unidade. Porém, três detentos analfabetos estão em fase de aprendizado do ''beabá'' com um agente penitenciário que se voluntariou para ensiná-los.
No setor de saúde há farmácia, consultório médico e odontológico, assistente social e psicólogo à disposição. O setor é concorrido. Um agente conta que todos os presos querem dar uma passada por ali para terem a chance de sair um pouco da cela. Um dado interessante: 70% deles usam remédios para hipertensão. Em segundo lugar na lista de medicamentos mais requisitados estão os psiquiátricos. O único internado no setor é um detento do Rio Grande do Sul que está em greve de fome em protesto por estar longe da família.
O uniforme é de uso obrigatório pelos presos. O enxoval é o primeiro ''presente'' que eles ganham ao chegar na unidade: tênis, sandália, duas calças, quatro camisetas - duas de manga curta e duas de manga longa -, duas bermudas, um conjunto de moleton, um par de luvas, dois pares de meia, duas cuecas e um gorro.
Abusado
A biblioteca é pequena, com dois mil títulos, mas concorrida. Semanalmente, cada detento tem direito a dois livros e duas revistas. O livro ''O outro lado da meia-noite'', do americano Sidney Sheldon, é o mais procurado. O romance ''Crime e Castigo'', do escritor russo Fiódor Dostoiévski, publicado em 1866, logo deve disputar um lugar no topo dos mais pedidos. A direção do presídio lançou um programa que dá quatro dias a menos de pena para quem ler esse livro e apresentar uma resenha sobre o conteúdo. O autor da melhor resenha ganha, como prêmio, mais dois dias de remissão.
Porém, não é qualquer livro que entra nessa biblioteca. Tudo que chega trazido pelas famílias ou por meio de doações passa por um serviço de inteligência. Questionado pela reportagem, o chefe do serviço de reabilitação disse que não entraria o livro ''Abusado, o dono do morro Santa Marta'', do jornalista Caco Barcelos, que conta a história do traficante Marcio Amaro de Oliveira, morto em 2003, o qual a exemplo do interno de Catanduvas Márcio Santos Nepomuceno, também assinava ''Marcinho VP''.
As cartas também são monitoradas. E não são poucas. Em agosto chegaram na penitenciária 408 correspondências. Um dos presos mais ''considerados'' recebeu 62. Foram enviadas pelos internos 544 cartas.
Cada preso de Catanduvas custa em torno de R$ 4 mil por mês aos cofres públicos.


