A vida de quem vive em barragem
PUBLICAÇÃO
sábado, 15 de agosto de 1998
Paulo Pegoraro 
Zé, Mané, João, tanto faz, só muda o nome ou o apelido. No restante, ele são praticamente iguais, fazem parte de uma massa cujas vidas foram concretadas nas barragens de hidrelétricas. Na cabeça, um único objetivo: a próxima barragem. Eles seguem avidamente o curso dos rios, acompanhando suas águas das nascentes à foz, e só param exatamente onde elas forem paradas, ou seja, na barragem. Não criam raízes, que afinal isso significaria abandonar um mundo todo próprio que construíram, e no qual, para muitos, não há lugar para uma família.
Quando a obra de uma barragem está próxima do fim, eles já estão prontos para seguir rumo à outra. Um Zé, o Paulo José Alves de Oliveira, 42 anos, dois filhos, que saiu do cantão de Aroeiras, na região das piores secas da Paraíba, está hoje na outra ponta do Brasil, na barragem paranaense da hidrelétrica de Salto Caxias, no Rio Iguaçu. Por enquanto, porque as obras se encaminham inexoravelmente para o final, e chega logo a hora de ir em frente. Paulo José Alves de Oliveira tem tanto apego à barragens que considera os que nela trabalham todos irmãos.
Oliveira, encarregado de solda, difere do protótipo do barrageiro apenas no detalhe de que, para onde vai, arrasta a família, porque acha que a presença do marido e pai em casa é vital. Eles (mulher e filhos) têm que ter a gente junto todo dia. Conheço muita gente que deixou a família lá num canto e se lascou, perdeu tudo, caiu no mundo, diz Oliveira, que na Paraíba cuidava de gado quando gado havia. Depois, foi para o Rio de Janeiro virar servente, e aí entrou na primeira barragem, a brasileiro-paraguaia de Itaipu, no Rio Paraná, onde ficou durante 12 anos.
Oliveira diz que pegou gosto e nunca mais deixou a barragem. Depois de ter deixado o Nordeste e varado o Brasil para chegar ao Sul e a Itaipu, deu meia-volta e subiu para o Norte até Tocantins. Acabou a obra, de novo o rumo Sul, desta vez para Salto Segredo, no Rio Iguaçu, depois veio o Mato Grosso, Espírito Santo... Hoje, Salto Caxias. O paraibano conhece as barragens e as vidas que por elas escorrem e acabam se perdendo. Por isso, para não ser mais um Zé Errante, ele se apega à palavra de Deus, onde encontra força para não desgarrar.
Barragem, porém, é cachaça também para quem pega pesado no concreto. Em Salto Caxias, eles já foram mais de três mil (agora, são 1,5 mil), parte considerável da própria região, que trabalhava na construção civil em pequenas cidades ou na agricultura, a maioria já assumindo definitivamente a condição de barrageiros. Ao lado deles, seguem trabalhadores mais qualificados, técnicos, engenheiros e outros profissionais, que vinculam suas vidas diretamente à barragem, como profissão de fé e opção de vida.


