São 860 detentos confinados em 24 galerias. O consumo semanal de camisinhas passa de três centenas. Cartas são produzidas aos montes, em torno de 2,4 mil por mês. Pelos 9.970 metros quadrados da cadeia estão distribuídos 289 portões com cadeados e outros 64 elétricos. Também existem os ''pipos'', mas isso é assunto para depois.
Exatamente seis meses após ser inaugurado, o Centro de Detenção e Ressocialização de Londrina (CDRL) já tem bem estabelecidas suas regras e normas de trabalho. Dentro de suas paredes, histórias e mais histórias de vidas conturbadas, julgadas e sentenciadas. Para conferir como é a rotina de detentos e funcionários na unidade, a reportagem da FOLHA foi para dentro do CDRL na última quinta-feira.
A história do Centro de Detenção começou em janeiro de 2005, quando o governador Roberto Requião (PMDB) e o prefeito Nedson Micheleti (PT) assinaram a ordem de serviço. O prazo para a conclusão das obras era de 10 meses, porém somente em 26 de abril de 2007 a cadeia foi liberada para receber detentos. Inicialmente, o plano do Governo Estadual era utilizar o novo prédio para a reclusão de presos provisórios e condenados. Hoje, no entanto, a cadeia abriga somente condenados e, eventualmente, um ou outro provisório.
Impressões positivas
Para quem tem na cabeça as imagens do filme Carandiru, de Hector Babenco, que levou milhões de brasileiros aos cinemas em 2002, ou até mesmo dos distritos policiais de Londrina que viviam superlotados antes da inauguração do CDRL, conhecer a mais nova cadeia londrinense por dentro impressiona positivamente.
Não há mau cheiro, não há excesso de presos, não há gritaria. Contudo, não deixa de ser um local que priva da liberdade centenas de homens comprovadamente criminosos. A sensação é de que algum incidente pode acontecer a qualquer momento.
Os próprios agentes penitenciários admitem que a tensão faz parte do trabalho. Mas uma arma poderosa os ajuda na manutenção da ordem: a caneta. Cada presidiário conhece muito bem o seu processo. Eles contam os dias, os minutos que faltam para ganharem a liberdade novamente. Por isso, sabem que um ato de indisciplina pode retardar a saída. Não querem nenhuma anotação negativa em suas fichas. Mesmo assim elas acontecem. Os conflitos são inevitáveis.
Em seis meses, o principal incidente registrado na unidade foi uma tentativa de fuga, no último dia 21 de maio, quando dois presos escalaram uma parede do pátio de sol e tentaram fugir pelo telhado. Um agente penitenciário percebeu a manobra e a fuga foi frustrada.
Falta d'água
Atualmente, segundo o diretor do CDRL, Raul Leão Vidal, o principal problema é a falta de água. O reservatório da unidade não tem vazão suficiente para o abastecimento, por isso é preciso fechar os registros três vezes ao dia. Não faltam reclamações por esse motivo.
Acompanhar um plantão na cadeia ajuda a entender melhor o que significa a reclusão. No Centro de Detenção, o dia começa às 7h, quando acontece a troca de plantão dos agentes penitenciários. É hora de tirar os presos das celas, ou melhor do ''X'', que vem de xadrez, na linguagem dos internos. Carteirinhas que os presos têm sempre à mão ajudam a saber qual é o destino de cada um: serviço, estudo ou pátio de sol.
Outra virtude da unidade é um sistema de informática que fornece rapidamente à chefia de segurança as informações sobre cada detento, inclusive a ala e cubículo em que ele está. Nenhum preso troca de cela sem autorização. Fumar também é proibido. O uso de uniformes é obrigatório.
Greve de fome
Andando pela unidade, encontramos cenas e histórias intrigantes. Na enfermaria, um detento está sendo atendido. Seu problema: greve de fome. Ele quer ser transferido para uma penitenciária de Santa Catarina, estado em que residem seus familiares.
Na ala do ''seguro'', onde ficam os detentos ameaçados pelos outros detentos, dois senhores, que estão mais para dóceis aposentados do que para bandidos, passam seus dias. Mal dá para acreditar que eles estão ali porque violaram o Artigo 214 do Código Penal, o qual trata de atentado violento ao pudor.
Na ante-sala da chefia de segurança, concentrado em seu serviço, encontramos Pedro (nome fictício), que cumpre pena de 70 anos por ter praticado diversos assaltos. Ele é o responsável por separar as cartas escritas pelos presos e dar o destino correto para os mais de 400 ''pipos'' diários.
O termo pipo vem de pipa, o brinquedo infantil também conhecido como ''papagaio''. Nada mais são do que bilhetes escritos pelos detentos. Eles usam os ''pipos'' para conversar com a chefia de segurança, com o departamento jurídico, com o serviço social, com a enfermagem. São reinvidicações de todos os tipos, que podem ou não ser atendidas.

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