A 'viagem' do lixo
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 29 de novembro de 2006
Fábio Cavazzoti 
Londrina. Sábado, 25 de novembro de 2006. Quatro horas da tarde. A chuva começa sem anúncio prévio. As ruas, comumente sujas, são lavadas pela água. Os bueiros, desprotegidos e sobrecarregados, iniciam mais uma vez seu trabalho. A água que não encontra um canto de grama e terra por onde se infiltrar, percorre calçadas e ruas impermeáveis. A chuva aumenta.
A sujeira encontrada pelo caminho - folhas, galhos, latas, garrafas, plásticos diversos, isopores, restos de papéis, papelões, óleos, graxas e inúmeros outros objetos - é carregada até as bocas-de-lobo e penetra nas galerias pluviais. Por ação da gravidade, todo sistema subterrâneo termina num fundo de vale, córrego, riacho ou ribeirão. Em poucos minutos, o descarte realizado de forma inadequada começa a chegar aos corpos hídricos. No lago Igapó, o resultado já é visível: o lixo, que, minutos antes, repousava sobre calçadas e ruas, bóia nas águas. Em curvas e reentrâncias dos rios, os objetos se acumulam. No Vale Verde, o excesso de água que percorre as galerias vaza pela tubulação e alimenta a imensa erosão iniciada há muitos anos.
Cinco horas da tarde: fim da chuva. O estrago mais uma vez foi consumado. As ruas estão mais limpas, porém o efeito inverso acontece nas áreas de despejo das águas pluviais. Mais uma vez a dinâmica da poluição difusa, aquela que não depende de grandes indústrias poluidoras, completa seu ciclo. Toneladas de lixo caminham rio abaixo. Silenciosamente.
Os bueiros - e a natureza -, estafados, já sabem: na próxima chuva, tudo se repetirá.
Alguém, em algum canto, poderá se perguntar: até quando o homem vai permitir que isso aconteça?


