A VEZ DO MORRO
Eles são os ''outros''. Nós sentimos medo. Eles não. Nós ficamos acuados. Eles avançam. Refleti sobre essas coisas ao participar, ontem, do Fórum de Debates da XI Bienal Internacional do Livro, no Rio de Janeiro, onde entre outros assuntos foi abordado o tema ''Vivendo na favela''. Fiz a minha mistura pessoal, de jornalista e escritor, pensando em voz alta: favela na prática social pode ser vista como sinônimo de grandes ausências, como cidadania, dignidade, saneamento, habitação, saúde, educação, emprego, gerando situações de revolta, desesperança, ociosidade e promiscuidade. O morro não tem vez.
Eles estão lá, nós aqui. Cada pedaço de chão que conquistam, seja de que modo for, a sociedade sai perdendo. É só fazer as contas sociais: eles vão ampliando a contagem por metros quadrados. Entenda como quiser: ocupação, de um lado, ou recuo do Estado, de outro.
Os últimos dados da cena carioca: são 752 favelas, segundo a Prefeitura. No ano passado, fui camuflado ao Complexo do Alemão, para ambientar o capítulo de abertura do meu livro ''Narcoditadura'', razão da minha presença na Bienal. Agora, fui dar uma espiada meio de longe no Complexo da Maré. Impressionou-me o detalhe: a Polícia Militar está construindo um quartel que tem uma torre de observação. A torre, com vinte metros de altura, é blindada. O cenário é socialmente deprimente.
Na parte sul da Canudos de Antonio Conselheiro, existe um ponto elevado chamado ''favela''. Euclides da Cunha menciona o fato em ''Os Sertões''. Quando os soldados da República voltaram vitoriosos da quarta expedição militar sobre o arraial na caatinga baiana, em 1897, muitos deles foram morar, sem dinheiro e Exército estruturado, nos morros do Rio de Janeiro capital federal. Construíram barracos toscos, logo batizados de ''favelas''. Esta, a origem.
Procurei partir daí, usando dois capítulos de Euclides, ''O homem'' e ''A luta'', para descrever a favela de hoje. Também foram convidados Drauzio Varela (''Estação Carandiru'') e Paulo Lins (''Cidade de Deus''), para oferecer perspectivas diferentes no debate. Aliás, surpreendi-me com Varela, recentemente, ao jantar com ele e pessoas que gostam de pensar reunidas por Mino Carta. Varela, de repente, puxou a caneta e, pedaço de papel nas mãos, pediu sugestões de livros obrigatórios para quem pretende se esmerar na arte de escrever. Registro a cena de humildade para os pedantes de plantão.
Em resumo: tais favelas são provetas malditas de bandidos. Quem mora lá vive como marisco entre impacto das ondas e as pedras: precisa obedecer às ordens do tráfico (que oferece atrativos sórdidos para crianças e adolescentes), senão sofre e morre. De vez em quando, a Polícia chega, detona e se retira. À maioria, resta o silêncio sempre assustado dos inocentes. Os moradores das favelas, e não só as do Rio, terão vez na vida? Em caso negativo, você já sabe o que vai acontecer.





