Na noite de 26 de janeiro de 1986, Anésio Alves Ferrer, 45 anos, saiu de Paranavaí, no Noroeste do Paraná, onde morava com a mulher Maria Helena Ferrer, 38 anos, e três filhos menores, para transportar para Niterói 18 mil toneladas de carne. O caminhoneiro tinha chegado naquela madrugada de outra viagem e foi chamado pela transportadora para a qual trabalhava para fazer a viagem até Niterói.
Maria Helena conta que ia junto com o marido, mas na última hora passou mal e não pode acompanhá-lo. Na manhã de 28 de janeiro, Anésio não chegou ao seu destino como era esperado. O seu caminhão foi encontrado no bairro do Pari, às margens do Rio Tietê em São Paulo. Toda a carga tinha sido roubada e Anésio não se encontrava no caminhão, que estava com os faróis acesos.
Depois de um ano de buscas, Maria Helena se convenceu de que o marido não iria mais aparecer. Mudou-se com os três filhos para Londrina, onde sua família mora, e começou a trabalhar para sustentá-los ao mesmo tempo que lutava para conseguir receber a pensão do INSS e o seguro de vida da seguradora.
A falta de um corpo que comprovasse a morte do marido dificultava o recebimento de seus direitos. A pensão ela recebeu depois de dois anos. Mais tarde, querendo receber o FGTS e o PIS, ela ficou sabendo que teria que conseguir junto ao Fórum de Paranavaí um atestado de óbito por averbação, já que o corpo nunca fora encontrado. A seguradora também exigia um documento que comprovasse a morte de Anésio.
Depois de 11 anos e de muitas idas ao Fórum de Paranavaí, ela conseguiu o documento. No entanto, a seguradora continuou se recusando a pagar o seguro de vida. ‘‘Só recebi o seguro depois que procurei a imprensa’’, conta.
Há 15 anos, Eufrásia Barato também passou pela mesma situação, só que até hoje não recebeu o seguro, segundo Maria Helena Ferrer. Cláudia Maria Lima vive hoje situação semelhante. O marido desapareceu nas estradas há um ano e meio. ‘‘Ela enfrenta sérias dificuldades para sustentar os três filhos. Já foi quase despejada e trabalha de segunda a segunda para dar conta das crianças’’, conta Maria Helena. ‘‘Ela recebeu a pensão, mas o seguro não.’’ (E.P.)

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