A todo vapor
PUBLICAÇÃO
sábado, 26 de julho de 1997
ELETRODOMÉSTICO VIRA FONTE DE RENDA Lúcio Horta Londrina 
César AugustoEsquadrilha do vaporJoão Luiz Fernando, o Tuco, que tem dez Vaporettos para locação: Quando chove dá uma aquietada, mas em dia de sol a procura é grandeUma máquina de tamanho médio, vermelha, mais parecida com um aspirador de pó e que, ao invés de aspirar a sujeira, lança nela uma carga concentrada de vapor de água. Depois de uma sessão de limpeza - sem que haja necessidade de utilização de produtos químicos - não sobram manchas de óleo na cozinha, sujeira nos cantos do banheiro e até o carpete fica renovado. Tudo limpo como novo, esterelizado, e o serviço feito com o menor esforço físico possível.
Milagre ou não, é isso que os fabricantes do Vaporetto garantem. Mas o preço salgado para a maioria da população brasileira - cerca de R$ 500,00 - despertou em muitas pessoas uma grande idéia e, ao mesmo tempo, um grande oportunidade para ganhar dinheiro: a locação do Vaporetto. Gastando apenas R$ 10,00, o cliente recebe o aparelho em casa, orientação de como utilizá-lo e pode desfrutar durante 24 horas da coqueluche doméstica do momento.
O negócio tem dado tão certo que algumas pessoas em Londrina têm três, dez, e até vinte Vaporettos para locação. E maioria não tem dúvidas: se houver disponibilidade de recursos, compram ainda mais. Eu era vendedor e estava em São Paulo trabalhando. Quando vi um anúncio no jornal me interessei e liguei do hotel mesmo para saber o que é que era aquilo. Nunca tinha ouvido falar em Vaporetto, lembra João Luiz Fernando, o Tuco. Ele foi até a casa da pessoa que alugava o aparelho na capital paulista, gostou do negócio, trocou algumas idéias e resolveu trazer a novidade para Londrina.
No final do ano passado, Tuco comprou os primeiros três aparelhos de Vaporetto e anunciou a locação na Folha de Londrina. Em pouco tempo o telefone começou a tocar e, a partir da daí, não parou mais. Ele então resolveu investir: primeiro comprou mais dois aparelhos; depois mais cinco, chegando aos dez Vaporettos adquiridos especificamente para locação.
Quando chove dá uma aquietada, mas em dia de Sol a procura é grande. Se você tem vinte aparelhos, aluga os vinte, aponta Tuco. Tanto que, além de bons lucros, ele acumulou durante esse período também um belo prejuízo: três aparelhos foram roubados de uma só vez.
Tuco explica que há cerca de duas semanas recebeu o telefonema de um novo cliente, que tinha se mudado para Cidade recentemente. Essa pessoa encomendou um Vaporetto para limpar o apartamento recém-alugado e também outros dois para tirar toda a sujeira grossa - principalmente gordura - de um açougue, também recém-comprado. No dia que eu fui buscar os aparelhos ele tinha viajado. Nunca mais, ele sumiu da Cidade. E não foi só em mim: esse cara prejudicou muita gente, lamenta.
Apesar do prejuízo, Tuco acha que vale a pena investir no negócio e já pensa em comprar mais seis ou sete aparelhos. Tenho uma clientela muito boa, desde hotéis, consultórios médicos até pessoas que alugam por uma semana inteira, afirma. Além disso, informa, ele aluga também aspiradores de pó e a aparelhos de jatos de água. Mas o carro-chefe do negócio é mesmo o Vaporetto.
A locação do Vaporetto também foi a solução encontrada pelo estudante José Buralli Neto, de 20 anos, para custear a vida em Londrina. Com os três aparelhos que tem, ele consegue pagar o apartamento, o cursinho, colocar gasolina no carro, pagar o telefone, as prestações do Vaporetto e ainda sobra guardar e se divertir. Esse mês pago a última parcela dos três e já penso em comprar mais dois aparelhos, informa.
Buralli Neto diz a idéia - para um futuro próximo - é montar uma prestadora de serviços de higienização. Ou seja, uma empresa que oferece ao cliente não só o aparelho mas também mão-de-obra qualificada para realizar os mais diversos tipos de serviços de limpeza. E ele pretende obter os recursos para isso justamente com a locação dos Vaporettos.
Se eu fosse arrumar um emprego, aqui em Londrina, iria ganhar no máximo R$ 300,00. Agora alugo uma média de dois aparelhos por dia. Acordo às 7 horas da manhã, ligo o celular e fico na cama esperando. Se tocou, passo água no rosto e vou entregar, explica. Porque hoje não dá para ficar
parado, você tem que se virar.
O estudante lembra que a idéia de alugar o Vaporetto começou na cidade natal (Assis, interior de São Paulo), na casa da namorada. Eu a via limpando a casa, com balde, água, aquela zona total, e sempre reclamando. Aí eu pensei: deve ter uma coisa mais fácil para isso. E sugeri que ela comprasse o Vaporetto, mas o aparelho era muito caro, lembra. Quando chegou a Londrina, em março, viu um anúncio no jornal, ligou dando uma de joão sem braço, e resolveu comprar logo três aparelhos de uma vez.
Anunciei na Folha e o telefone logo começou a tocar. E hoje é muito difícil fazer qualquer negócio no Brasil. Você não tem apoio, não tem crédito. Sem contar que um trabalhador ganha R$ 120 por mês e um político R$ 11 mil. A situação é revoltante, diz Buralli Neto, que apesar da indignação ainda mantém um resto de esperança pendurada na parede da sala: a bandeira do Brasil.
Com vinte aparelhos reservados para locação, Naelço de Oliveira pode ser considerado o rei dos Vaporettos em Londrina. Ele garante que mantém em média quinze locações diárias, dois funcionários para entrega - sem contar a família -, além das diaristas que ele contrata para fazer limpeza com Vaporetto na casa dos clientes. Meus clientes gostam de locar comigo porque dou assistência durante o dia, substituo o aparelho se precisar, pego cheque pré-datado. O cliente está em primeiro lugar.
Oliveira diz que teve a idéia de alugar o parelho da forma mais simples possível. Eu comprei o Vaporetto para limpar em casa. Só que ele ficava mais tempo parado do que funcionando, porque uma boa limpeza por mês basta. Aí minha esposa teve a idéia de alugar. Começamos e a partir daí não paramos mais, lembra.
Depois do primeiro, Oliveira comprou outros dois Vaporettos. A locação aumentou e ele adquiriu mais três, outros quatro e, finalmente, mais dez Vaporettos. Por enquanto não penso em comprar mais porque senão não dou conta de entregar. E eu tenho clientes fixos: uns pegam toda semana, outros pagam por mês. São clientes fiéis, assegura. Para ele, o investimento não é de risco porque tão cedo os clientes não vão passar a comprar o próprio Vaporetto. O aparelho é usado em média uma só vez por mês, por isso não compensaria. E R$ 10,00 é muito barato.


