Todas as noites, Londrina sofre um verdadeiro bombardeio. Vindas da Zona Rural, com a barriga cheia e o intestino solto, dezenas de milhares de pombas, popularmente conhecidas como rolinha ou amargosa, ocupam as árvores da área central da cidade e... Sai de baixo que lá vem cocô. Ao lado das rolinhas, porém em número bastante inferior, a chamada pomba caseira também ajuda nesta nada edificante obra.
Mas isso todo mundo já sabe, entendidos e entidades inclusive já debateram o assunto, embora neca de solução. Enquanto isso, os passarinhos continuam emporcalhando os carros e adubando a polêmica. A novidade agora é que a imprensa está sendo acusada de tomar partido de uma das partes:
''Vocês ficam colocando fotos e pondo a culpa nas pombinhas caseiras, mas elas não têm nada a ver com isso, quem faz a sujeira são as rolinhas, as amargosas, essas marronzinhas do rabo branco, essas tem que exterminar que é praga!'', desabafa o leitor Jéferson Batista Barros, lembrando que ''em Londres, no Central Parque em Nova Iorque, as pombinhas são até atração turística''.
Do desabafo, ao desafio: ''Pergunte para o povo na rua, garanto que todo mundo vai defender as pombinhas. Já as rolinhas, se não pode erradicar, que inventem algum aparelho que produza um barulho que só os passarinhos ouçam, algo que não deixe elas dormir, garanto que vão sumir do Bosque'', sugere Barros.
Desafio aceito, só mesmo ouvindo o povo sobre esta batalha intestina que, num chocar de ovos, atinge a todos os londrinenses. ''As pombas caseiras não são problema, as amargosinhas do Bosque é que tem que ser exterminadas, não dá mais pra agentar!'', reclama a aposentada Betina Lins. Ela revela, inclusive, que uma amargosa chegou a fazer um ninho bem em cima da sua geladeira. Nordestina, ela diz que tem uma solução para o caso: ''Basta trazer uma família de conterrâneos meus, lá de Pernambuco, que em uma semana eles comem tudo, não sobra uma!''.
Para o securitário Romildo Lubrigati, tanto uma pomba quanto outra são responsáveis pela sujeira, porém, diz, o caso é complicado porque ''matar dá dó e deixar faz mal pra saúde''. Sua sugestão é ''liberar para caça, mas de forma coerente, não é pegar uma espingarda e sair por aí atirando''.
O tema é controverso: enquanto o marceneiro José Bertoni proclama que ''acabaram com o habitat delas e uma vida não deve ser destruída'', o padeiro aposentado Carlos Giufrida receita o contrário: ''É preciso acabar com rolinhas e pombinhas já, é uma vergonha uma cidade toda cagada como está Londrina!''.
Há quem radicalize: ''Que tal erradicar o ser humano que é o responsável por isso e pelas grandes catástrofes que ocorrem no mundo?'', questiona o empresário Fernando Monteiro. Alegando que as pombinhas não têm pra onde ir, a solução para ele seria a criação de uma área para elas na Zona Rural, ''preservada e com alimentos para que possam ir embora e viver em paz porque aqui elas são maltratadas e bebem água de esgoto''.
Entre os doutores da área também há controvérsia. Para o médico veterinário e professor da Uel Ivens Guimarães, tanto a Columbia Lívia quanto a exótica Zenaida Auriculata ''são problemáticas'. Trocando em miúdos, seja rolinha/amargosa ou pomba comum, ''uma suja tanto quanto a outra'' e, portanto, ambas devem ser combatidas.
Para ele, além de práticas de manejo integrado, é preciso fazer uma ''monitoria e o desbaste populacional para recuperar o equilíbrio da população das pombas'' e isso implica no sacrifício de aves adultas. Segundo o professor, tal tarefa é inadiável e não se pode perder tempo com as ONGs que ''estão ganhando dinheiro e enganando o povo'' com propostas sonhadoras, enquanto as pombinhas continuam sujando a cidade e dando prejuízo para os agricultores. Ele faz questão de dizer, porém, que ''não é erradicar, é capturar, fazer um desbaste, mas de forma humana, integrada com outras ações, pois o desequilíbrio é tanto que já é praga''.
A também médica veterinária Anne Christina Hiltel, assessora de gabinete da Secretaria do Meio Ambiente (Sema), lembra que há poucas informações sobre o abate de aves adultas e que ''o abate pelo abate é besteira, se não estiver integrado com outras ações como o plantio de matas ciliares, o combate ao desperdício na colheita, o estudo do comportamento das aves e seus hábitos alimentares, além de um trabalho junto àquelas pessoas que alimentam os pombos''.
Sobre esse último ponto, ela faz um alerta: ''Alimentar os pombos é um ato de crueldade, deixa-os dependentes desse alimento, eles se estressam, brigam pela comida, se machucam e acabam vivendo menos. Além disso, eles existem desde a antiguidade, não precisam do ser humano para encontrar alimento''.
A quem recorrer, então, se nem o Ibama, contatado em 2005, se interessou pelo assunto? Para a assessora da Sema, enquanto as ações não são implementadas, a saída são os gaviões. Por isso é preciso não espantá-los quando eles aparecem. ''Além de pegar o pombo adulto doente, eles comem os ovos e os filhotes'', observa Anne Christina, lamentando o desaparecimento do falcão Coleira, que é o principal predador do pombo adulto.

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