A solidariedade que corre nas veias
Dimitri do Valle
De Curitiba
Os meses de dezembro, janeiro e fevereiro não são períodos de abundância nos bancos de sangue. As férias dos doadores regulares provocam uma baixa de 50% nos estoques. No início deste ano, o Centro de Hemoterapia e Hematologia do Paraná (Hemepar), em Curitiba, o maior das 24 unidades espalhadas pelo Estado, registrou o inverso: o número de doadores diários chegou a 170 quando o normal não ultrapassa os 120.
A chefe da divisão de relações comunitárias do Hemepar, Norma Dickmann, destaca que esta corrida ao banco de sangue não aconteceu por acaso. O Ministério da Saúde desencadeou uma campanha nas tevês brasileiras para incentivar a doação a partir de dezembro. Norma acredita que as propagandas foram decisivas, principalmente, nas festas de final de ano, para sensibilizar o doador. A última semana de dezembro é um período crítico pois a necessidade por transfusões aumenta em razão das mortes violentas no trânsito e assassinatos.
No entanto, a boa notícia verificada em Curitiba não é suficiente para deixar a direção do Hemepar tranquila. Isso aqui é uma batalha diária. Você sempre está buscando novos doadores, analisa Norma. Ela observa que de uma hora para outra, os estoques podem ficar comprometidos. Isso também dependerá do caso clínico do paciente de um hospital da cidade e do seu tipo sanguíneo. Numa transfusão, há situações em que é preciso que o paciente tenha outros 25 doadores para repor as bolsas usadas na cirurgia.
A maior dificuldade enfrentada pelo Hemepar em Curitiba é encontrar doadores espontâneos. Eles representam apenas 35% do universo das doações. O índice restante é de parentes e amigos que fazem um mutirão para auxiliar um conhecido que está necessitando de sangue para uma cirurgia. A meta é que até 2003, o Hemepar consiga reverter o quadro. O Ministério da Saúde estipula que nos próximos quatro anos, os doadores espontâneos cheguem a 70%, estima Norma.
O objetivo é difícil, já que o brasileiro não tem intimidade com a agulha. Existe o medo de contrair uma doença, o receio de pegar o resultado do exame, mas eu acredito que a maioria não vem mesmo pela desinformação, analisa Norma. Uma das estratégias para atrair os candidatos a doador é a persuasão. Existem vantagens para quem se dispõe a doar entre 300 miligramas e 500 miligramas do líquido vermelho.
Ao mesmo tempo em que representa um gesto solidário, doar sangue pode significar o salvamento da vida do próprio doador. Em no máximo 20 minutos, tempo médio que dura uma doação, a pessoa terá a chance de passar por uma bateria médica completa. Antes do sangue ser considerado apto para outra pessoa, são realizados exames para saber como está o nível de colesterol (um grande responsável pelos ataques cardíacos), AIDS, sífilis, doença de Chagas, hepatite B e C, HTLV I e II (vírus relacionada à leucemia) e TGP (alterações no fígado).
De acordo com a CLT legislação que rege os direitos e deveres do trabalhador , o doador recebe um dia de folga da empresa se for até o banco de sangue. Há uma curiosidade nesta questão. Em véspera de feriado, o número de doares sempre ultrapassa a média rotineira no Hemepar de Curitiba. Mas para Norma, o espírito da doação é outro, seja na iminência de um feriado ou num dia comum. Hoje alguém está precisando, mas amanhã pode ser você, avisa.Campanha ajudou na conscientização dos doadores, mas meses de férias são críticos nos hemobancos do Paraná
Kraw PenasSEM VOLUNTÁRIOSQuando os doadores espontâneos escasseiam, o que sempre acontece nas férias, os hemocentros apelam à boa vontade dos policiais militares





