Foz do Iguaçu - Logo após completar 30 anos, o agricultor saiu de Nova Esperança rumo à tríplice fronteira com uma idéia fixa na cabeça. Sua fortuna seria construída em Foz do Iguaçu com um empreendimento capaz de gerar lucro, sem precisar pegar mais numa enxada.
O dinheiro para o investimento estava no bolso, algo em torno de R$ 40 mil, fruto de uma suada poupança e da herança deixada por uma avó. Vitório Ramos leu num diário iguaçuense que restaurantes e lojas de roupas tinham retorno garantido. Optou pela primeira alternativa.
De manhã, foi procurar um imóvel bem localizado para concretizar seu sonho. Depois de andar muito, ficou boquiaberto quando viu a placa de ''vende-se'' na fachada de uma loja encravada no coração comercial da cidade: na esquina da Avenida Brasil com a Rua Xavier da Silva.
Afoito, questionou o valor dela a um mascate das redondezas, mas levou um susto com a resposta do vendedor. ''Seu eu fosse o senhor não comprava esse troço. Todo comércio que abre aí fecha a porta em pouco tempo. O porquê, ninguém sabe'', alertou o autonômo.
Vitório ficou com um pé atrás. Afinal, era impossível um estabelecimento tão bem situado estar fadado ao fracasso. Durante a busca por mais informações, descobriu que ali funcionara um hotel, restaurante e uma casa de câmbio. Soube que até uma 'zona' existiu naquela esquina.
Apesar do quadro desfavorável, ele decidiu fechar o contrato de compra. Entretanto, antes de assinar a papelada, perguntou ao velho Francisco, que há anos tentava vender o ponto comercial, por que todos comércios instalados na esquina faliram.
O idoso desmentiu a famosa história que almas penadas vagavam naquele pedaço de chão e jogou a responsabilidade na crise econômica do município. A explicação pouco convenceu Vitório, que ameaçou abandonar a idéia se o velho não abrisse o jogo.
Prestes a perder o cliente, Francisco mudou o discurso, embora ignorasse uma explicação lógica para a sina. ''O problema pode estar na numerologia da fachada, porém nunca tive tempo para mudá-la'', respondeu o senhor. Vitório aceitou a justificativa e assinou os papéis, acreditando ter feito um bom negócio.
Já sozinho, Francisco sentou no sofá para escrever, mentalmente, mais um capítulo da sua vã filosofia. ''Ponto comercial falido é igual torcedor bêbado gritando em jogos de futebol amador. Toda cidade tem o seu. Do bebum, ninguém se livra, mas do imóvel, basta uma mentirinha para passá-lo adiante''.

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