A SERVIÇO DA VIDA - Ciência brasileira longe dos brasileiros
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 27 de setembro de 2006
Silvana Leão<br> Reportagem Local 
Uma revolução nas técnicas de reprodução humana está em curso no Brasil, e passos firmes nesta direção estão sendo dados por um paranaense nascido em Marialva (17 km a leste de Maringá), que com sua mente genial conquistou lugar de honra no mundo da pesquisa, mas ainda espera importantes descobertas suas serem devidamente aproveitadas por quem mais precisa delas. O médico Carlos Gilberto Almodin, 51 anos, professor orientador da Universidade Federal de São Paulo, que mantém clínica e um centro de pesquisa em Maringá, já investiu boa parte de seus ganhos na busca obstinada por descobertas capazes de realizar os maiores sonhos de casais e melhorar a qualidade de vida das mulheres. Porém, mais difícil do que desvendar a ciência, tem sido torná-la uma aliada do dia-a-dia dos consultórios.
Algumas das revistas científicas mais conceituadas do mundo, como a inglesa Human Reproduction, e os diversos certificados de prêmios expostos na parede de seu consultório trazem o registro de suas principais conquistas. E é justamente a publicação mais recente de um artigo que atesta a eficácia de um de seus trabalhos que o tem deixado desanimado.
A Human Reproduction de agosto traz pesquisa realizada por uma cientista belga que submeteu uma mesma paciente a três diferentes técnicas de congelamento/implante de ovário, desenvolvidas na Bélgica, Estados Unidos e Brasil. O trabalho provou, cientificamente, que a técnica que obteve melhores resultados foi a de Almodin. ''Isto me deixou lisonjeado mas ao mesmo tempo muito chateado. Nós desenvolvemos a técnica, aprimoramos, gastamos horrores - e não tenho nenhum apoio para isso -, no mundo inteiro pesquisadores sérios estão provando que ela é eficaz e, no entanto, aqui sequer temos o reconhecimento dos médicos oncologistas, que nem falam para suas pacientes que serão submetidas a radioterapia da existência da técnica.''
Partindo do desejo de ajudar mulheres que seriam submetidas ao tratamento de radioterapia, Almodin teve uma idéia muito simples, mas ao mesmo tempo inovadora. ''A mulher que faz este tratamento perde a capacidade reprodutiva. E como ela não precisa dos dois ovários, concluímos que poderíamos retirar um deles antes do início da radioterapia e congelar seu tecido germinativo. Ao final do tratamento, o tecido é reimplantado na estrutura do ovário que ficou, fazendo com que a mulher recupere totalmente sua fertilidade e possa engravidar normalmente.''
Embora o sucesso da experiência já tenha sido comprovado em ovelhas (trabalho que rendeu, em 2004, o primeiro prêmio da American Fertility Society, que o considerou um dos melhores trabalhos científicos do mundo), coelhas e no estudo feito na Bélgica, a equipe de Almodin ainda não pôde testar a técnica em mulheres brasileiras. ''Temos tudo pronto para isso, mas infelizmente nenhuma paciente nos procurou até agora. Ou seja, mulheres têm tido os ovários destruídos pelos tratamentos de câncer e sequer sabem que existe uma técnica capaz de reverter isto.'' A equipe de Almodin é a única hoje no Brasil que tem autorização do CNPq para fazer transplante de tecido germinativo em humanos.
O médico explica que quando começou a pesquisar a técnica outros pesquisadores já trabalhavam no assunto ao redor do mundo. ''Mas não gostei do que estavam fazendo. Eles estavam tentando retirar o ovário, congelar e depois tentar recuperar o óvulo do ovário. Achei uma loucura, porque seria tudo muito artificial. Achei que devíamos tentar arrumar uma maneira de restaurar a fertilidade da paciente, de maneira íntegra'', relata.
Almodin também acaba de ser citado no livro Who is Who in Medicine and Healthcare (Quem É Quem em Medicina e Cuidados com a Saúde), editado a cada dois anos nos Estados Unidos mostrando quem são as pessoas ao redor do mundo que fazem algum tipo de trabalho realmente útil para a sociedade de modo geral. Para o pesquisador, que abriu mão de outros patrimônios e já planeja a construção de um centro de pesquisas mais espaçoso ao lado da clínica, trata-se de um direciomento de vida que resultou em uma conquista fantástica, ''mas que não está sendo útil para ninguém''.


