Entre os milhares de romeiros que cruzam a passarela da fé erguida no maior centro mariano do mundo, chegamos, inevitavelmente, às cenas bíblicas da multidão necessitada se comprimindo para ver e tocar Jesus.
No Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, no interior de São Paulo, o cego de Jericó, Nicodemos e a viúva de Naim são anônimos que, anualmente, somam 7 milhões de pessoas tentando tocar a orla do manto da Padroeira do Brasil à espera de um milagre, através da intercessão da santa achada por pescadores no Rio Paraíba, em 1717.
''Aqui qualquer água que a gente bebe é benta''.
A afirmação de um desses anônimos dentro do banheiro público no Porto Itaguaçu numa curva do rio, onde os pescadores encontraram o corpo e depois a cabeça de uma imagem de Nossa Senhora da Conceição, lança a rede para pescarmos os traços dessa devoção popular brasileira.
Ele é um dos personagens de uma romaria que a Folha acompanhou ao Santuário Nacional, que nos finais de semana ou datas festivas, como 12 de outubro, Dia da Padroeira, acolhe 150 mil pessoas, multiplicando a população de Aparecida, cidade com cerca de 34.904 habitantes.
Cada fotografia, braço e perna de parafina - ex-votos deixados pelos romeiros na sala das promessas na basílica nova - é o retrato dos passageiros dessa viagem de fé, dispostos a sacrifícios físicos e espirituais por um tiquinho que seja de graça.
Nossa peregrinação será por histórias, como a da dona de casa baiana Maria da Saúde Nascimento que num esforço de devoção, apesar de estar no sexto mês de gravidez, atravessou de joelhos metade da passarela, ligando a igreja velha, com mais de 100 anos, à basílica nova.
Na fieira de pagadores de promessas, o drama de Eudário Ramos da Cruz busca consolo dos braços da santa.
Uma história que vamos repetir os percalços nesta reportagem, que tenta recolher de cada vestido de noiva, carrinho de brinquedo, troféus, miniaturas de casas e aviões, espalhados por vitrines e o teto da sala de promessas, o sentido da fé, que leva milhares de pessoas a se atirarem na estrada, levando às últimas consequências a devoção.
A viagem será em um ônibus ''bate-volta'', transporte da maioria dos peregrinos que desembarcam no Santuário Nacional.
Acompanhamos uma excursão de romeiros organizada pelo Santuário Nossa Senhora Aparecida, na Vila Nova (Área Central de Londrina).
Os dois ônibus partem por volta das 21 horas, com paradas previstas em Cambé (13 quilômetros a oeste de Londrina), onde embarcou uma de nossas personagens, dona Maria das Graças Almeida Moreno, que mais tarde vai entregar uma carta da filha à Nossa Senhora Aparecida.
Em Sertanópolis (40 quilometros ao norte de Londrina), mais alguns minutos de espera pelo embarque de outros passageiros. ''O horário da partida nós sabemos, mas quando vamos chegar... Só Deus sabe'', antecipou a longa noite na estrada, que duraria pelo menos 10 horas, o padre Valdecir Molinari, 40 anos.
Ele organizou a excursão, que se encontraria com a de outros romeiros, em Aparecida, para celebrar a memória dos 100 anos da morte do beato João Batista Scalabrini, fundador da ordem dos Carlistas, considerado também o pai dos migrantes.
A modernidade pegou a estrada com os peregrinos, que antigamente desfiavam o terço e músicas religiosas pelo fio de estrada até que a ladainha fosse vencida pelo sono.
Hoje, o conforto dos ônibus oferece a opção do DVD a bordo. Porém, a reza ainda mantém o grupo acordado por muitas cidades, que passam pela janela.
No vaivém de biscoitos, bolos e balas pelo corredor do ônibus, a solidária partilha dos romeiros também divide com a reportagem os relatos das graças recebidas.
''Esta é a primeira vez que eu viajo de ônibus com a minha mulher, depois que sofremos um acidente na volta de uma excursão para Aparecida, há cerca de 17 anos. O ônibus estava chegando em São Paulo, saindo da Dutra. Ao entrar na Marginal, caímos no Tietê. Além de nós dois, viajavam o meu pai e a minha cunhada. A maioria dos romeiros era de Bela Vista do Paraíso. Do jeito que atravessou só ficou a traseira do carro fora da água. Me salvei pela janela de emergência, peguei minha mulher. Afundamos duas vezes. De repente estenderam para nós um galho de mamona seco. Não tinha ninguém na nossa frente. Com certeza foi Nossa Senhora'', distraiu-nos boa parte do percurso, o comerciante Cláudio Boschetto Salina Lopes, 46 anos.
Horas antes do embarque, as 12 pessoas da família da dona de casa Lucira Ferreira, 48 anos, contava os minutos para juntar as graças recebidas com as de outros peregrinos.
Ansiosos por encurtar a distância da noite até Aparecida, os devotos aprenderam que a fila de um banheiro numa parada para esticar as pernas pode ser ainda mais longa que o tempo que faltava para o desembaque.
Com o sol ainda envergonhado e o Santuário Nacional já se mostrando no morro, a reza e as músicas religiosas agora ajudam a carregar as sacolas vazias e que, mais tarde, voltarão cheias de imagens, terços e lembranças de Aparecida, compradas no comércio santeiro da cidade. Uma fita ''lembrei-me de você'' pode custar R$ 1,00 na basílica. O mesmo valor dá para comprar 50 unidades com os comelôs na feira.
Numa das bolsas, grudada ao peito da dona Maria das Graças Almeida Moreno, 55 anos, a carta da filha apressa o passo da mulher, que há 20 anos toma conta de um coral infantil na igreja do Jardim Ana Rosa, em Cambé.
Na outra mão, Maria das Graças carrega uma bolsa com a comida do almoço, que fará no refeitório da basílica.
A reboque vai o marido, que não fala nada. Somente escuta a profissão de fé da esposa num andor de pedidos:
''Quero pedir à santinha graças para a minha família, a minha mãe presa na cadeira de rodas, meu filho que teve meningite e ficou com problema de cabeça, pedir por todos nós'', atravessou o pátio da basílica e os corredores que levam à sala das promessas, secando a garganta com a dureza da vida.
A mulher se perde na pressa dos romeiros. Depois que entrega a carta, corre para visitar a imagem da santa na basílica nova e ainda deixar as orações acesas na sala das velas, atravessando a passarela calçada de promessas até a igreja antiga.
Nesse roteiro de peregrinação por velas em tamanho natural de devotos, perdendo de vista a miúda Maria das Graças, a tragédia pessoal do Eudário Ramos Cruz, 64 anos, aparecesse na nossa frente narrada pela barba e o cabelo que o aposentado ofereceu à santa, agradecido pela recuperação de um acidente vascular.
''Viajamos 6 horas de Senador Amaral, Minas Gerais, até Aparecida. O meu marido estava desenganado pelos médicos, que disseram que ele não tinha mais que um mês de vida'', contou a esposa, a doméstica Loide da Silva, empurrando a cadeira de rodas.
O conferente Ênio Carlos Jesus Oliveira, 24 anos, deixou Nova Soure (BA), viajando mais de 2.600 quilômetros para emprestar os joelhos à esposa, Maria da Saúde, grávida de seis meses e que não suportou o peso do calor sobre a passarela.
Oliveira não se abriu em feridas, como a paulistana, Rosimeire Bueno, 33 anos, que foi até o fim da promessa. Sentada na calçada, a psicoterapeuta tratava os ferimentos.
''O mais difícil são as pessoas pisando na gente. Tem hora que parece que não vamos conseguir. É preciso ter muita fé. É preciso estar determinado'', testemunhou a jovem, que não foi a última personagem dessa viagem pela devoção popular católica, antes de voltarmos a Londrina.
Num país onde 90% da população afirma crer em Deus, como aponta o Censo 2000, apesar de nos últimos anos terem surgido 100 mil novas religiões no mundo, essa devoção é capaz de arrastar milhares de pessoas numa experiência mística tão incompreensível, quanto tentar entender a ordem da multidão pela passarela, ligando as duas basílicas, como a terra ao céu.

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