As ruas dos Pintores, Viajantes, Lavradores, Mecânicos, Artesãos, Motoristas, Pedreiros, Carpinteiros, Eletricistas, Funileiros, Vigias e Garçons dependem dela: a Avenida Rainha do Lar.
A avenida (onde todas essas outras ruas começam), no Conjunto Chefe Newton Guimarães, na Zona Norte de Londrina, é composta predominantemente por casas populares. Destas, uma dela, a de número 557, chama a atenção pela criatividade estampada em seus muros e na fachada, em mosaicos feitos com pedaços de pisos e azulejos de diversas formas e cores. ''Meu marido trabalhava na construtora, então quando ele encontrava um caco desses, catava, ensacava e ia guardando. Daí ele colocou aqui na casa'', explica dona Marta (ela preferiu não dizer o sobrenome), 76 anos.
Marta conta que mora na casa há cerca de 30 anos, desde que se casou. Para ela, ser dona-de-casa hoje é quase um descanso depois de uma vida de muito trabalho. ''Nasci e me criei no sítio, e trabalhei na lavoura até me aposentar. Tinha comida boa, é por isso que ainda estou inteira. Hoje em dia as pessoas ficam muito doentes porque comem qualquer coisa que encontram pela frente'', comenta.
Outra mulher batalhadora na Avenida Rainha do Lar é Ana Aparecida Pereira, 66 anos. Apesar de ter passado a vida limpando a casa alheia, ela nunca teve uma casa própria, e atualmente mora na casa da irmã, para onde se mudou depois que adoeceu. ''Trabalhei como doméstica desde os 10 anos. Mas, de uns dois anos para cá, precisei parar porque fiquei doente'', revela. Ainda assim, ela dá uma mãozinha na limpeza. ''Gosto de deixar arrumado, a minha irmã fica contente. E ficar parada não dá'', explica-se. Solteira, ela conta que quando era mais nova tinha vontade de ter a própria casa onde pudesse reinar, mas ''agora perdeu a graça''.
Já Leonete dos Santos Boranga, 36 anos, trabalha fora a semana inteira como costureira, mas nem por isso deixa de se considerar uma rainha do lar, cuidando não só da limpeza e arrumação da casa, mas também de sua família. No domingo à tarde, ela estava cortando grama enquanto seu marido dormia e a filha usava o computador. ''Mas eles também me ajudam'', garante.
Leonete diz achar lindo o nome de sua rua. ''Costumo dizer que é o nome de rua mais bonito que existe. Acho que somos mesmo rainhas do lar, e que tínhamos que ser mais valorizadas'', afirma, com orgulho. O único problema com esse nome, segundo ela, é que muita gente confunde a Rainha do Lar com a Rainha do Mar, que fica no Jardim São Marcos (Zona Sul). ''Chega muita correspondência errada por causa disso.''
Com oito filhos, a dona-de-casa Aparecida de Fátima Dias, 38 anos, também diz que é a rainha de seu lar. ''Tomo conta da casa, dos filhos. A gente trabalha até mais do que quem trabalha fora'', compara. Para ela, mais difícil que lavar, passar, cozinhar e limpar é cuidar da educação dos filhos. ''O mundo tá ficando cada vez pior, tem muito usuário de droga, então é mais difícil dar educação. Só que não me arrependo. Todos os meus filhos são uma bênção na minha vida'', comenta. Mas, justamente por causa da boa educação das crianças, ela está de mudança. ''Moro aqui faz oito meses, viemos pra cá porque gostei da casa. Mas já roubaram a bicicleta do meu filho, tem muito ladrãozinho por aqui'', lamenta.

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