Hoje, Marta Madureira sente orgulho do irmão, mas quando ele vivia perambulando alcoolizado nas ruas de Londrina, confessa que sentia vergonha medo, raiva, pena e impotência. Marco Antônio Madureira da Silva, por sua vez, diz que, desde quando deixou a família para viver sem rumo, pedindo esmolas para comprar bebida, também sentiu vergonha e medo, mas estes sentimentos vinham sempre acompanhados de solidão e incompreensão. A história deles teve final feliz, pois Silva conseguiu vencer o vício, e a família, o preconceito, mas nem sempre é assim. Atualmente, nove pessoas adultas moram nas ruas de Londrina sem qualquer vínculo familiar ou perspectiva de vida.
O número pode parecer pequeno, mas incomoda e cresce ao considerar que, diariamente, o programa municipal, Sinal Verde - que aborda moradores de rua -, atende uma média de três pessoas que estão em ''situação de rua'', ou seja, eles podem ter residência, mas por algum motivo estão sem rumo. ''Em 60% dos casos, essas pessoas são de fora de Londrina. Muitas estão apenas passando pela cidade e acabam pedindo dinheiro nas ruas do município'', afirma a gerente do programa assistencial, Sandra Coelho.
Marco Antônio, hoje com 45 anos, não só voltou a morar com a família, como está estudando e busca emprego. ''Hoje sou avô e estou recuperando o diálogo com minha filha. Sou querido pela minha família. Minha mãe jura que é uma benção divina'', afirma. Articulado e inteligente, ele tem várias histórias a contar, como a do empresário que conheceu nas ruas de Balneário Camburiu (SC). ''Era um poliglota, eu nem acreditava que podia estar convivendo com um cara daqueles na rua, mas é uma prova de que nem sempre quem está nesta situação é bandido ou vagabundo'', garante.
De acordo com Coelho, apesar da maioria das pessoas pensar o contrário, de fato muitos moradores de rua são pessoas que já tiveram uma vida tradicional, com estudos, família e emprego. ''Vários têm carteira assinada. Já atendemos até ex-diretor de escola. O que a gente percebe é que as pessoas perdem o rumo e vão para a rua quando passam por um processo de ruptura, seja familiar ou empregatício, muito grande'', afirma.
A assistente social acrescenta que o problema piora quando aparecem as drogas e a bebida. Situação que Marta conhece bem, afinal viu o irmão se entregar ao álcool a ponto de viver doze anos longe dos familiares. ''Encontrar meu irmão pelas ruas, caído, mal-vestido, tão alcoolizado que nem nos reconhecia, é, sem dúvida, uma imagem que eu quero esquecer'', afirma.
Emocionada, ela também lembra do processo de recuperação: ''Ouvimos ele falar no rádio, através de uma iniciativa do Sinal Verde, contando a própria história. Ele estava tão diferente que nem podia acreditar naquilo, então resolvemos apostar. Hoje é maravilhoso ter meu irmão de volta'', conta. Ela faz questão de ressaltar que já viveu muitas situações de preconceito, e que atualmente, ao olhar para quem vive na rua, pensa na família da pessoa. ''Tinha gente que achava que eu era igual ao meu irmão. Até com isso tive que aprender a lidar''.
De acordo com Sandra Coelho, recolocar o ex-morador de rua na família e no convívio social é uma das mais difíceis etapas. ''Em parceria com outros órgãos do município, cuidamos do vício, do lado psicológico, ensinamos um ofício, mas recolocar esse homem na família demanda um trabalho grandioso, porém gratificante'', ressalta. Ela reforça que a população londrinense pode ajudar evitando o preconceito e as esmolas. Sem o dinheiro, ela defende que fica mais fácil os moradores de rua aceitarem a ajuda e o encaminhamento a um abrigo.
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