Até que ponto o trabalho de um jornalista pode influenciar a vida de uma pessoa ou mudar uma história? Até que ponto o profissional de comunicação deve se envolver com um fato, se nos bancos da escola, aprenderam que a imparcialidade é ‘‘basicamente’’ uma regra? O envolvimento com os assuntos abordados tira o profissional da função de contadores de história para colocá-lo na roda viva dos acontecimentos, transformando o que parecia óbvio, em surpresas, muitas vezes gratificantes.
  Repórter do jornal horaH de Curitiba, a jornalista Vânia Mara Welte, hoje membro da Central de Notícias da Agência de Notícias dos Direitos da Infância e da Adolescência (ANDI), encarou o desafio de cobrir um dos assuntos mais polêmicos que movimentou a imprensa do Paraná no ano de 1992. O caso que ficou conhecido como ‘‘As Bruxas de Guaratuba’’ ganhou repercussão nacional quando mãe e filha foram
acusadas de seqüestrar e matar o menino Evandro Caetano, de sete anos, num ritual de magia negra.
  Celina e Beatriz Abagge, esposa e filha do então prefeito de Guaratuba, Aldo Abagge (morto em agosto de 95), tiveram suas histórias contadas por um outro ângulo. Enquanto toda a imprensa abordava os fatos sob a ótica da acusação e testemunhas, a jornalista buscou a apuração de fatos que ajudaram a modificar os rumos do processo e que por conseqüência, culminaram na absolvição das rés.
  Foram 17 matérias em um período de 9 meses, veiculadas no pequeno jornal semanal. Todas anexadas ao processo. A cobertura que rendeu à profissional o Prêmio Esso de Jornalismo, em 1996, mudou também a vida das acusadas. Depois de cumprirem sete anos de pena (três anos e nove meses de prisão em regime fechado e três anos e três meses em prisão domiciliar), mãe e filha foram inocentadas do crime em abril de 1998.
  Tão surpreendente quanto o resultado desse trabalho, que foi apresentado pela própria jornalista durante o 1º Seminário Nacional de Ética, que aconteceu no último fim de semana em Londrina, foi a presença de Celina e Beatriz Abagge durante a palestra ministrada na manhã de sábado.
  No depoimento emocionado, elas relataram as lembranças de um período difícil, dos 34 dias de julgamento em São José dos Pinhais (região metropolitana de Curitiba) e do gosto da liberdade, apesar da determinação da Justiça por um novo julgamento.
  Celina Abagge conseguiu um silêncio absoluto da platéia ao relembrar momentos de tortura, agressão moral e a sensação de que poderia morrer, junto com a filha que passava pela mesma situação. ‘‘Eles queriam que eu confessasse uma coisa que eu não fiz. Confessei porque achei que ia morrer’’.
  A presença de mãe e filha foi um dos grandes destaques do Seminário, que acirrou a discussão sobre ética, o envolvimento profissional com entrevistados e a forte influência que a imprensa tem nos acontecimentos, capaz até de mudar o rumo de uma história.

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