As árvores das ruas e das praças de Campo Mourão não são mais as mesmas. De repente, como numa história de Monteiro Lobato, elas começaram a falar. Romperam o silêncio de décadas para protestar. Elas estão pedindo mais respeito e dizendo que não aguentam mais ficar ''segurando'' faixas de promoção de eventos.

A primeira a ''botar a boca no trombone'' foi uma tipuana da Praça São José. ''Onde já se viu amarrarem faixas em alguém da minha idade'', teria dito ela. Na praça Getúlio Vargas, uma outra tipuana parece mais conformada. Ela conta a quem passa pelo local que chegou a comemorar, em 1964, quando o Código de Obras e Posturas de Campo Mourão proibiu que anúncios fossem amarrados em árvores públicas. ''Está lá, no artigo 498!'', ressalta a tipuana.

Também nas praças centrais, uma sibipiruna mais jovem diz que nem sabia da proteção prevista no Código de Posturas, mas lembra da lei 1.040/97, que criou o Código Municipal de Arborização e Ajardinamento Urbano de Campo Mourão. O artigo 11 deste novo código também proíbe que faixas sejam amarradas na arborização pública.

Mas na prática, a situação é diferente. Há poucos dias, uma palmeira jerivá da Praça São José e uma outra árvore tiveram que ficar segurando uma faixa anunciando um evento cultural. ''O pior é que o evento passou e a faixa continou lá'', testemunha um pau-ferro plantado logo ao lado.

A mesma reclamação fizeram ligustres plantados na Avenida Capitão Índio Bandeira. Eles contam que uma faixa da Semana Nacional do Trânsito ficou amarrada em seus troncos por mais de um mês. ''A semana comemorativa acabou e nós tivemos que continuar segurando aquela faixa. Foi um
desrespeito duplo'', denunciaram inconformados.

Mas não é só isso. Uma sibipiruna também reclamou das declarações de amor que, de uns tempos para cá, começaram a aparecer em faixas afixadas em árvores da cidade. ''Que culpa eu tenho se essa gente se apaixona?'', questiona a árvore.

Apesar da revolta e do silêncio rompido, as árvores continuam belas e robustas, espalhando o verde e suas flores pela cidade. Disso elas garantem que não abrem mão. Só querem respeito e que as leis sejam cumpridas para que possam voltar ao silêncio. Afinal, a fotossíntese não pára e não há tempo para conversa. Nem para segurar faixas.

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