Em alto e bom som elas anunciam que estão por perto. Deixam suas trincheiras camufladas no solo e saem aos milhares para a superfície. Nas árvores, penduram as armaduras e com asas potentes ganham a liberdade. Estamos falando das cigarras. Nesta época do ano, elas aproveitam a chegada do calor e o aumento da umidade para se mostrarem e se reproduzirem. E, como um exército formado por milhares de combatentes, tomam as áreas urbanas de assalto sem cerimônia. Vez ou outra, alguém se assusta mas quem passa ou trabalha na avenida Leste-Oeste (área central de Londrina), por exemplo, já se acostumou a se encantar com o zumbido característico desses insetos.
As acácias do canteiro central da avenida estão tomadas por milhares de cascas (exúvias), um sinal de que as cigarras já atingiram a maioridade e ganharam asas. No chão, os furinhos denunciam que os filhotes (ninfas móveis) estavam por alí sugando a seiva generosa captada pelas raízes. Nos finais de tarde, nem mesmo a barulheira do trânsito e de pessoas encobre o canto dos insetos machos.
Quem trabalha ou passa pela região com frequência já se acostumou com a algazarra festiva da vizinhança de temporada. ''Adoro o barulho delas e elas deixam a vida da gente mais alegre. Parece que elas estão avisando que as flores estão chegando'', elogia a auxiliar de cozinha Carmem Conceição Foltran, que todos os dias quando sai do trabalho faz questão de passar pelo canteiro central só para apreciar as cigarras. Ela diz que assim relembra um pouco dos tempos de criança vividos em um sítio que também era visitado pelos insetos. ''A gente pegava elas para brincar mas sem machucar. Hoje, quando vejo esses meninos tentando matar alguma cigarra até penso em falar com eles mas tenho um pouco de medo'', revela. E o amor pelos bichinhos cantores ela passou também ao filho César Augusto, de 10 anos. ''Ele tinha medo mas expliquei para ele que elas não fazem nada e hoje ele também adora'', comemora.
O segurança Aécio Carlos não tem tempo de brincar com as cigarras mas já flagrou lances curiosos provocados pelos insetos. ''Quando os passarinhos tentam pegar as cigarras que ficam na árvore e elas voam, as mulheres se assustam'', conta o rapaz, deixando a seriedade de lado por alguns instantes.
Quem entende do assunto já sabe que é mesmo nesta época do ano que as cigarras cumprem seu ciclo de vida, aproveitando condições climáticas favoráveis. O pesquisador do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), Nei Lúcio Domiciano, explica que os ovos colocados nas folhas eclodem, descem e penetram o solo, onde permanecem se desenvolvendo entre um e dois anos. Depois, se transformam em ninfas móveis que sobem novamente à superfície e se fixam nos troncos ou ramos até trocarem as cascas, já na fase adulta. De acordo com ele, engana-se quem imagina que as cigarras cantam até explodir. Elas, na verdade, ganham asas.

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