Desde outubro do ano passado, quando uma célula da Promotoria de Investigações Criminais (PIC) iniciou seus trabalhos em Londrina, 11 policiais entre militares, civis e rodoviários já foram presos na região. Essas várias prisões num curto espaço de tempo geraram pelo menos um questionamento: porque isso está ocorrendo?
Na avaliação do promotor Cláudio Esteves, as estatísticas demonstram que estruturas como a PIC têm mais credibilidade junto à população do que os comandos. Para ele, as ocorrências envolvendo policiais se acentuaram desde a instalação da PIC justamente porque ''foi criada uma estrutura capaz de trabalhar nesse sentido e que foi percebida pela população''. Em praticamente todos os casos apurados pelos componentes da PIC de Londrina, foram as próprias vítimas que fizeram a denúncia e auxiliaram na prisão dos policiais suspeitos.
Para a PIC local, a saída é insistir no trabalho contínuo de apuração de todas as denúncias contra policiais que são informadas. ''Não estamos numa caça às bruxas, mas se o problema existe na estrutura das polícias, vamos apurar'', avisa. O promotor acredita que as prisões recentes possam servir de alerta e inibir que outros policiais também cometam crimes. Ele aproveitou para desmentir que a promotoria mantenha escutas telefônicas generalizadas contra policiais, boato que surgiu após as primeiras ocorrências envolvendo as corporações Civil e Militar.
Uma outra diferença da PIC, lembra o promotor Jorge Costa, é que os promotores e delegados, além de efetuarem as prisões dos suspeitos e fazerem as denúncias, acompanham todo o andamento dos processos e a aplicação das punições cabíveis quando existe a condenação do acusado, como por exemplo a expulsão do cargo nos casos envolvendo funcionários públicos. ''A corrupção está disseminada de tal forma na sociedade que algumas pessoas acham normal usar do cargo para ganhar dinheiro'', lamenta Costa. Ele explica, por outro lado, que também cometem crime aqueles que aceitam ser corrompidos.
Tanto Esteves quanto Costa não concordam com a explicação simplista de que dificuldades financeiras oriundas dos baixos salários sejam a causa primeira que leva o policial a mudar de lado. ''Quem pratica esses atos são criminosos vestidos de policiais'', comentam.
Em Londrina, das cinco ocorrências registradas desde outubro de 2003 envolvendo policiais, quatro estavam ligadas à prática de concussão (extorsão praticada por funcionário público). Um dos casos de maior repercussão ocorreu no final de dezembro com o então delegado de Ibiporã (14 km a leste de Londrina), José Antônio Zuba de Oliva, dois escrivães de polícia e mais três policiais rodoviários. Segundo a denúncia, a estudante de direito Sandra Cristina Rosa teria sido obrigada a entregar aos policiais um veículo Passat alemão, avaliado em mais de R$ 15 mil, para se livrar de uma prisão em flagrante por suspeita de receptação de tratores roubados. Os envolvidos negam as acusaçoes. Noutra situação, um policial militar que fazia 'bico' como mototaxista foi preso em flagrante acusado de tráfico de drogas e porte ilegal de arma. No final de janeiro, um policial rodoviário teria exigido R$ 200,00 e um computador portátil para liberar o veículo de uma motorista abordada próxima a Mauá da Serra.
A reportagem da Folha tentou durante a semana obter um dado estatístico junto aos órgãos de segurança pública do Estado sobre o número de policiais civis e militares que foram expulsos de seus cargos entre os anos de 2002 e 2003 mas a Secretaria de Segurança Pública e a Polícia Militar não dão informações sobre o assunto.

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