A placa baleada
Prazer. Sou moradora da zona sul de Londrina. Meu nome é placa. Sou quem te avisa e aconselha gratuitamente, cidadão motorista. Vivo dizendo, todos os dias: DEVAGAR. Repito a cada um que se aproxima: DEVAGAR. Insisto em olhar o chão com a seta diagonal: DEVAGAR. Falo a todo instante sobre a colina de asfalto que, uma vez que tu estejas acelerado, te dará em troca a vingança e te prejudicará. Pois então, DEVAGAR; tira o pé do acelerador, toma tua calma, aumenta tua paciência, passa levemente sobre a lombada. Do contrário, te arrependerás amargamente de oficina em oficina, de mecânico em mecânico, de concessionária em concessionária. Eu zelo a suspensão da humanidade. Agradece-me: eu vigio pela tua inteireza e a de teu bolso e a de teu automóvel. Nunca saio do lugar. Sou ordeira, até considerada chata, por isso alvo fácil. Tão alvo que alguns infames me alvejaram - fui baleada sem dó. Por isso meu desenho hoje lembra um sorriso de cabeça para baixo: não sou feliz. Eis-me aqui, mais uma vítima da violência urbana, ironicamente vizinha do Batalhão. Tudo porque desconhecidos testaram armas a alguns metros do templo policial. Testaram a pontaria em mim, uma simples e amarela placa. Amassada pelo chumbo. Parada sem reação. Presa na solitária do acostamento. Sem direito a qualquer justiça, das comuns ou das incomuns. Antes de seguir adiante, pensa na tua placa, amigo motorista. Diminui a velocidade. Minha única forma de comunicação é repetir exaustivamente: DEVAGAR. Olha-me. Ouve-me. Depois continua cautelosamente, cidadão, pelos caminhos equívocos desta Cidade.
(Paulo Briguet)





