A lembrança dos inúmeros exames de corpo de delito a que foi submetida ainda a emociona. ''Imagine uma mulher ter de ficar despida e ainda ver seu corpo ser fotografado praticamente centímetro por centímetro por um estranho. É muita humilhação.''
Ainda assim, o que mais pesa para a dona-de-casa Matrona Stoicov Rodrigues hoje é a perda da independência física e, acima de tudo, emocional. ''Passei por fisioterapeutas, vários médicos particulares e recentemente voltei a pedir ajuda à psicóloga'', ela conta. Se isso ajudou a resolver a perda equivocada de uma parte do corpo, contudo, é outra conversa: ''Não morri, como o doutor Lúcio Alberto havia me dito, mas nada vai me devolver à vida normal. Minhas saúdes física, mental e sexual foram todas destruídas'', diz, ela que hoje não vive mais com o marido.
A lembrança dos 14 anos de luta judicial também ficou marcada para os filhos de Matrona. Uma delas, a dona-de-casa Márcia Cristina Rodrigues, de 24 anos, conta que o pior não eram as brincadeiras de que era alvo na escola. ''Era ver minha mãe na cama por tanto tempo, dependendo dos outros. Não foi nada fácil para nós'', confessou.
Fácil ou não, Matrona diz hoje, 14 anos depois, que agora só quer arrumar formas de ocupar o tempo, seja pescando com os irmãos, ou com os filhos e netos. ''É para esquecer a solidão. Afinal, quem vai querer alguém mutilada assim?'', questiona.
E, na opinião dela, a experiência vivida lhe permite a chance de dar um conselho. Ou, como faz questão de frisar, um alerta: ''Muita gente ainda é vítima de erro médico e não denuncia por não acreditar na Justiça. Mas ela existe, sim''. (J.G.)

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