A palavra dos índios
Antes, como lembrava a música, todo dia era Dia do Índio.
Depois, com o aparecimento do homem branco, a situação mudou dramaticamente. Dos índios, foram retirados dias, terras, culturas. E vidas. Um rio de sangue e transfiguração cortou o caminho dos povos.
Hoje o calendário está diferente. 19 de abril - amanhã - é a única data reservada exclusivamente aos índios. Nesse dia, eles comemoram o orgulho da própria origem e a cultura dos antepassados. É apenas um dia. Mas tornou-se importante para a comunidade.
Nas reservas do Norte do Paraná, os homens, mulheres e crianças estão comemorando antecipadamente o Dia do Índio. Haverá algumas horas de festa, alegria e orgulho, mesmo com todas as dificuldades. Tempo de exibir o artesanato, lembrar os ancestrais e dançar pela madrugada.
Hoje, a Folha Reportagem faz um diagnóstico da situação dos índios no Paraná. A vida nas reservas não é fácil: miséria, problemas de saúde, falta de estrutura e conflitos de terra fazem parte do cotidiano. No Paraná, hoje, há 17 reservas, com cerca de 9 mil índios (caingangues e guaranis, na maioria). A população das reservas cresce duas vezes mais que a população não-índia.
Com uma lógica própria, diferente, pessoal e espontânea, os índios também escrevem na língua do homem branco. Pequenas redações de meninos e jovens indígenas, de São Jerônimo da Serra, mostram a identidade do caingangue e do tupi-guarani.
A Folha hoje também publica esses textos. A maior parte foi escrita por crianças da Escola Rural Cacique Koféj, nos dois últimos anos. Os alunos-índios falam sobre origem de nomes, metades tribais, conversas com avós, o cotidiano das reservas. São documentos testemunhais de um modo de vida. O jornal optou por publicar as redações sem qualquer tipo de correção gramatical, mantendo o caráter espontâneo dos originais.
Há apenas um texto que não foi escrito por crianças ou jovens: é o relato de Americo Rodrigues, 47 anos, no qual ele relembra passagens de sua infância. Era a época de antigamente, quando Americo despertava, caminhava e trabalhava com os companheiros de tribo, de acordo com o fluxo da natureza.
Muito tempo atrás - vale lembrar á- não existia 19 de abril.





