Com pouco mais de 14 mil habitantes, Nova Tebas, na região central do Estado, tinha tudo para ser uma discreta cidade entre os 399 municípios do Paraná. Uma série de acontecimentos, no entanto, fez com que a vida dos moradores, nos últimos sete anos, deixasse de ser considerada pacata. No mês passado, a bomba-relógio que derrubou uma torre de transmissão de energia elétrica, de Furnas Centrais Elétricas, foi apenas mais um capítulo da ‘‘agitada’’ vida de Nova Tebas.
‘‘Infelizmente, Nova Tebas acaba sendo destaque de uma forma que a gente não gostaria’’, lamenta o prefeito Luís Carlos Petrechen (PTB). Ele próprio foi o personagem principal de um caso de destaque estadual, em julho. Quando ninguém esperava, a Câmara de Vereadores se reuniu numa sessão extraordinária e, com um simples decreto, cassou o mandato de Petrechen por oito votos contra três, sob a alegação de que os repasses da prefeitura estavam com três meses de atraso (o prefeito admite que eram dois).
A cassação foi comemorada pelos vereadores com um foguetório. O vice-prefeito Severo Leônidas Chocian (PFL) assumiu o cargo logo na manhã do dia seguinte. Para isso, teve que mandar arrombar cinco portas e retirar um vidro. Os arrombamentos foram feitos por funcionários da prefeitura, mas até o barbeiro da cidade ajudou. No mesmo dia da posse do vice, porém, o prefeito voltou ao cargo através de uma liminar e não perdoou os adversários: soltou foguetes para comemorar o retorno e demitiu os oito parentes de Chocian empregados da prefeitura.
Briga política, no entanto, é coisa corriqueira. Quem passa por Nova Tebas, que fica a cinco quilômetros da BR-487, entre Campo Mourão e Pitanga, não acredita que a cidade já foi palco de um dos sequestros mais comentados do País. Não acredita que o município é destaque em relatório recentemente divulgado pela Organização das Nações Unidas (ONU) e é dono do maior roubo de gado da história policial do Paraná. Pudera! Segundo o IBGE, dos 14.301 habitantes de Nova Tebas apontados no Censo de 1996, somente 1.796 moram na cidade.
O índice chega a impressionar: 78% da população de Nova Tebas mora na zona rural. São 11.554 pessoas vivendo, a maioria, em pequenas propriedades. Talvez por isso mesmo o cavalo ainda seja um meio de transporte tão comum mesmo na cidade. É difícil passar pela avenida principal, que ostenta placas de indicação ao estilo de ‘‘cidade grande’’, sem se deparar com um ou outro cavaleiro. No distrito de Poema estão mais 751 habitantes. No total, Nova Tebas tem 7.405 homens e 6.896 mulheres.
É verdade, porém, que a maioria dos acontecimentos que agitam Nova Tebas não têm participação de seus moradores. Eles vêm de longe. Alguns, de muito longe. É o caso da esfera metálica, oca, com cerca de 70 centímetros de circunferência e mais ou menos 20 quilos. A esfera caiu do céu em 1992 direto numa propriedade rural de Nova Tebas. Foi mais do que suficiente para a cidade virar notícia nacional. ‘‘Saímos até no Fantástico’’, lembra a diretora do Colégio Estadual Carlos Drummond de Andrade, Maria Casturina Esser.
A ‘‘bola que veio do céu’’ atraiu a curiosidade dos moradores, que chegaram a formar fila na porta do cartório da cidade para vê-la de perto. Especialistas da Aeronáutica e professores de renomadas universidades do País estiveram em Nova Tebas para estudar o fenômeno. A hipótese de se tratar de um pedaço de satélite nunca foi confirmada à população, que ainda hoje se intriga com o caso. A esfera continua na cidade e pode ser vista no laboratório do colégio. Junto com ela está uma outra, bem menor mas muito parecida, achada dias depois num rio do município.
Quando o suposto pedaço de satélite caiu em Nova Tebas, o município estava apenas em seu terceiro ano de vida. A posse do primeiro prefeito eleito - o mesmo Petrechen de hoje - aconteceu em janeiro de 1989. Antes do satélite, porém, Nova Tebas tinha sido destaque no País devido ao sequestro do empresário Samuel Toledo, de Maringá. É que foi numa propriedade rural do município que os sequestradores - os temidos ‘‘irmãos Oliveira’’ - montaram o cativeiro. O caso aconteceu em setembro de 1991 e marcou os moradores.
Que o diga o escrivão de polícia Adalberto Wessel. Até hoje ele não trabalha no dia 14 de setembro e guarda, sem nunca mais ter usado, a roupa e as botas que estava vestindo naquele dia. ‘‘Eu nasci de novo’’, explica. Foi em 14 de setembro de 1991 que Wessel, juntamente com o delegado João Berardi e o suplente Pascoel Justino, foi até um sítio verificar a denúncia de um carro abandonado. O que parecia uma ocorrência banal, acabou desvendando o sequestro. O trio foi recebido a bala e o fim foi trágico. Berardi e Justino morreram. Só Wessel escapou.
Wessel também é o dono do cartório de Nova Tebas, onde a esfera que caiu do céu ficou exposta nos primeiros dias. Foi ele, por exemplo, que avisou a Aeronáutica sobre o caso. ‘‘Um coronel me pediu para não deixar ninguém se aproximar porque poderia ser algo radioativo’’, relembra o cartorário-escrivão. ‘‘Só que naquela altura, tinha criança que já havia até entrado na esfera’’, exagera Wessel. Já em 1994, Nova Tebas foi destaque devido a quadrilha de 12 homens que usou oito caminhões para roubar 156 cabeças de gado de uma fazenda. Todos foram presos.
Pelas ruas da cidade, a população parece já ter se acostumado a, volta e meia, virar o centro das atenções do País. ‘‘É normal. Em cidade grande acontece coisa muito pior’’, diz um servidor da prefeitura sem querer se identificar. Já o agricultor Olívio Tibiler, 63, que mora em Nova Tebas há 40 anos, jura que não se assusta com mais nada. Nem com ‘‘bola que cai do céu’’ nem com bomba em torre de transmissão de energia. ‘‘Aquilo que caiu do céu era uma farsa’’, prega. ‘‘Falaram que tinha um extraterrestre dentro, mas isso é mentira’’.

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