Foi debaixo de uma grandiosa árvore, olhando para o céu, que ele decidiu mudar. Com uma garrafa de cachaça numa das mãos, sem tomar banho havia sete meses, ele firmou o pensamento em Deus e disse: ''Eu quero que Você tire isso de mim! Quero voltar a viver!''. Desde aquela ensolarada tarde de 1999, Paulo Bacarin, mais conhecido como Paulinho Pára-Chok, nunca mais bebeu. Hoje, aos 52 anos, ele trabalha com consertos de peças de veículos num pequeno estabelecimento localizado às margens da Rodovia Mello Peixoto, em Cambé, e chora sempre que reconta sua história.
''O álcool é uma desgraça na vida da pessoa. Quando alguém fuma, ela faz mal só pra ela. Quando a pessoa bebe, ela consegue destruir tudo e todos que estão em sua volta'', diz.
Quem passa pela rodovia fica surpreso ao notar dezenas de calotas penduradas no portão, além de diversos pára-choques na calçada. ''Todo dia, por volta das 18 horas, eu tiro um por um desses pára-choques para guardar aqui dentro. O pessoal que trabalha aqui por perto e vê eu fazendo isso, fica cansado só de olhar'', brinca.
Há quase oito anos, antes de colocar um cobertor debaixo do braço e sair de casa apenas com a roupa do corpo e os documentos pessoais, Paulinho tinha uma vida estável, trabalhava com funilaria e pintura e tinha casa própria, onde morava com a mulher e três filhos. ''Meu casamento foi passando por muitos problemas por causa da bebida. Uma das minhas filhas se revoltou muito com tudo o que aconteceu e um dia, depois de tantas brigas e discussões, resolvi sair de casa. Deixei tudo para eles e fui embora''.
Sem opções, Paulinho se acomodou próximo de um viaduto, a poucos metros de onde hoje funciona a sua oficina. Naquele local ele passou sete meses, dormindo ao relento, com fome e frio. ''Quando eu conseguia um dinheiro era porque alguém passava por lá, com algum problema no carro e eu acabava ajudando. Então me pagavam alguma coisa e eu ia correndo comprar bebida''. Como ele mesmo diz, ''praticamente não comia nada'', não tomava banho e só se mantinha com o álcool. ''Tinha algumas madrugadas que eu sentia como se tivesse uma ferida no meu estômago, de fome mesmo, e também devia ser por causa do álcool. Eu bebida de tudo, qualquer coisa. Minha mente já estava ficando confusa. Um dia cheguei a fazer uma salada com capim; tentei comer, mas não desceu'', lembra.
Desde que abandonou o vício, Paulinho se transformou. Ele se emociona ao contar que recebeu ajuda de gente que acreditou em sua mudança. Hoje, consegue manter o estabelecimento comercial - mesmo local em que mora - com despesas que giram em torno de R$ 1,2 mil, entre luz, aluguel, água e telefone. E ainda sobra dinheiro para ajudar quem precisa.
''Às vezes vem assim na minha cabeça a imagem de algum lugar que eu preciso ir para levar comida para alguém. Então eu vou. Uma vez um homem muito pobre passou aqui vendendo isqueiro. No dia seguinte eu fui no supermercado, fiz uma compra enorme, nem pensei em quanto ia dar. Peguei um taxi e fui lá na casa dele levar. A mulher dele disse que naquela mesma noite tinha pedido muito a Deus que alguém aparecesse para ajudar porque eles não tinham comida para os filhos. Fiquei muito feliz'', conta.
De vez em quando, a ajuda deixa mais do que lembranças. As paredes da casa de Paulinho estão cobertas de mensagens bíblicas, pintadas por um usuário de drogas. ''Um dia, um jovem chegou aqui muito desesperado. Ele disse que tinha feito besteira no dia anterior e que queria largar as drogas. Eu conversei muito com ele sobre Deus, sobre tudo. Então ele pediu para escrever isso na parede e eu deixei como lembrança'', relata Paulinho.
Feliz com a fé em Deus e satisfeito com a determinação que um dia o ajudou a abandonar o vício, Paulinho sente que muitas coisas boas ainda vão acontecer na sua vida. ''Minha filha, que tinha uma certa revolta de mim, ligou esses tempos atrás e disse: 'Pai, hoje eu tenho orgulho de você!' Vindo dela, aquilo me deixou muito feliz. Eu sei que um dia eu ainda vou conseguir comprar esse terreno onde moro e aí nem vou precisar morrer para ir para o céu, porque meu céu vai ser aqui''.

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