À noite, ansiedade toma conta do internato
Som de silêncio é um conceito que define bem o clima do Ciaadi à noite. Mesmo com grande parte dos menores já dormindo e sem o barulho das provocações e conversas que tomam conta do Centro durante o dia, a sensação é de que algo está constantemente prestes a acontecer. ''Não há silêncio, há ausência de barulho, e o que parece é que tem uma bomba com pavio apagado aqui dentro'', define um dos educadores do período.
O número de funcionários na unidade durante a noite é reduzido. Mesmo com vigílias constantes pelos corredores, sempre há tempo suficiente para que se ouça alguma ameaça ou barulho de grade, sem poder se ter idéia de onde o som veio. Todas as alas e celas ficam trancadas. Só são abertas para a passagem de um educador, que a tranca logo em seguida.
Às 21 horas, um pequeno lanche é servido aos adolescentes. Pão com manteiga e chá quente, além de uma garrafa de água, para ajudar a combater o calor. A demora na oferta de qualquer um destes itens gera protestos intensos. ''Cadê a minha água, educador? Que demora do caralho, filho da puta, serve logo!''.
Tentavivas de se explicar a tal demora são geralmente mal-sucedidas. Um dos educadores, por exemplo, levou um banho de água do menor reclamão, que não fez questão de ouvir que o chá ainda estava sendo preparado. Ao receber um copo da bebida quente, o mesmo menino chama outro educador, a fim de pedir um favor.
- Você pode me chamar, por favor, o Cláudio (o funcionário agredido)?
- Para quê?
- Eu quero oferecer um gole de chá para ele...
Depois do lanche, hora de mais um período de atendimento de pedidos dos menores. Ao invés da troca de linhas para confecção de pulseiras, agora é a vez de fazer a permuta de revistas. Quadrinhos e revistas religiosas. Hora, também, de iniciar um passatempo informal nos corredores do Ciaadi. Um jogo simples, onde um pé de chinelo é amarrado a uma tira de cobertor. Menores de celas vizinhas tentam entrelaçar os chinelos e, quem conseguir arrebentar a tira do outro, ganha a sobremesa. A brincadeira nunca dura menos de duas horas.
Os educadores mantêm uma rotina de conversas com os adolescentes depois do lanche. Muitos contam histórias sobre ladrões bem sucedidos. Outros querem manter um papo reservado com a única educadora mulher do período. ''Educador, dá licença, quero falar sozinho com ela'', pede um dos meninos.
Por volta das 23 horas, os cadeados de celas e alas são revisados. Começam os pedidos a um educador aparentemente muito respeitado pelos menores. ''Eu adoro ouvir você cantar. Canta hoje aí!''. E não se ouve mais nada.





