Há cerca de cinco anos, a rotina relativamente tranquila da cabeleireira Vilma Satie Sato sofreu uma reviravolta. Praticamente ao mesmo tempo, ela viu sua mãe, na época com 82 anos, sofrer o primeiro de uma série de Acidentes Vasculares Cerebrais (AVCs); seu pai, dois anos mais velho, ser vítima de infarto; a irmã intensificar os sintomas de doença degenerativa e o irmão, portador de deficiência mental e auditiva, ter recaídas pela falta de atenção. Com tantos problemas, Vilma poderia ter entregue os pontos e adoecido também. Mas sua força interior e a crença de que tem uma missão a cumprir falaram mais alto, e ela preferiu adaptar sua vida e sua casa para acolher todos eles.
Aos 63 anos, a cabeleireira aposentada - que continua a atender algumas clientes, para ''desestressar'' - enfrenta uma realidade cada vez mais comum dentro das famílias. Como ela, muitos têm que se tornar cuidadores de uma hora para outra. Somados à parcela que adota a atividade como profissão para atender a demanda gerada pela maior perspectiva de vida da população, formam um contingente de familiares e profissionais que vive para proporcionar maior conforto e saúde a quem perdeu um dos maiores bens do ser humano: a independência.
''Eu acordo de três em três horas para aspirar minha mãe, que não tem mais deglutição e pode se sufocar com a saliva. Durmo segurando a mão dela, assim acordo se ela fizer qualquer movimento mais brusco'', conta a cabeleireira, que transformou a copa de sua casa em uma espécie de enfermaria, ocupada por camas, nebulizadores, cadeiras de roda, medicamentos e tudo o que for necessário para melhorar a qualidade de vida de sua família.
A rotina de Vilma começa diariamente às 4 da madrugada, horário de iniciar os preparativos da dieta nutricional de cada um. As manhãs são dedicadas a levar e buscar o irmão Paulo, de 57 anos, ao Instituto Londrinense de Educação para Crianças Excepcionais (Ilece), levar os familiares às consultas médicas e fazer compras no supermercado, enquanto outra irmã encarrega-se de administrar as refeições da família.
Mesmo com a demanda de trabalho com os pais e irmã, Vilma não descuida de Paulo, que não suporta mudanças bruscas em sua rotina. ''Os médicos nunca diagnosticaram, mas acho que ele tem autismo. Quando nossos pais adoeceram, ele começou a dizer que não queria mais ir para o Ilece, que ele adora. Na verdade, era uma forma de demonstrar que estava sentindo falta de mais atenção dentro de casa.''
Bem humorada, Vilma faz o relato do seu dia a dia de dedicação aos outros com um sorriso constante nos lábios. Não esconde o cansaço, mas resigna-se: ''Uma vez a minha avó me disse que esta era a minha missão, e eu acredito que seja isto mesmo. A minha mãe dedicou a sua vida inteira à família, agora é o momento de retribuirmos. Eu percebo que ela está tranquila porque sabe que pode confiar na gente, e com isso eu também fico mais tranquila. Acho que Deus dá força para quem precisa dar força''.
Apesar da fé nesta força superior, a cabeleireira sabe que não pode descuidar da própria saúde. ''Se tiver alguém para cuidar deles eu dou umas escapadas, faço uns passeios rápidos.'' Entre as atividades que ela não dispensa está a homenagem anual feita pelo Ilece aos cuidadores de seus alunos, ao final de cada ano. ''É uma maneira de dedicarmos um dia às pessoas que passam todo o tempo cuidando de outras. Procuramos proporcionar prazer, alegria, descanso e atividades agradáveis a elas'', informa a diretora do Instituto, Luciane Aparecida Eiras Pape.
Momentos como estes são um ''respiro'' para quem vive pelo outro. ''É muito importante que o cuidador não se descuide de si mesmo, porque o desgaste físico e emocional é grande'', reforça o médico geriatra Marcos Cabrera. Ele lembra que o melhor cuidador é aquele que tem vínculo afetivo com o paciente, mas há casos em que a carga operacional é tão intensa que compromete esta relação de afeto. ''Por isso a terceirização das atividades automáticas - como cuidados com a higiene, alimentação, caminhadas - é recomendada. É uma forma de garantir o equilíbrio emocional dos familiares'', ressalta o médico.

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