No Jardim União da Vitória 3, na zona sul de Londrina, as ruas estreitas e as casas distribuídas informalmente contribuem para que toda a vizinhança compartilhe de grandes amizades e todos os moradores conheçam uns aos outros. Mas na Rua Manoel da Silva Bonfim, Elias Satiro da Silva, de 54 anos, é conhecido por outro motivo: a dedicação que tem por uma das nascentes do bairro, localizada em frente à sua residência.
Pernambucano nascido em Garanhuns, seu Elias, como é chamado, fixou moradia no União há 25 anos. Ele lembra que a mata fechada encobria boa parte dos espaços que hoje são tomadas por ruas e casas. Pai de seis filhos e com dois netos, se aposentou por motivos de saúde, após ter se submetido a diversas cirurgias.
Com uma personalidade calma, porém apressado nas palavras, seu Elias faz questão de mostrar cada canto do terreno baldio que abriga a nascente do Ribeirão Cafezal e que ele ajuda a preservar. Cansado de esperar pela limpeza que é de responsabilidade do poder público, ele mesmo ''botou a mão na massa''.
''Isso era um verdadeiro lixão. Tinha sofá velho, restos de entulho, tudo. Ninguém acreditava no meu esforço. Falavam que 'uma andorinha só não faz verão''', lembra, ao apontar o terreno onde hoje é possível encontrar uma horta bem cuidada, com uma variedade de verduras. ''Comecei esse trabalho de formiguinha há 18 anos porque eu ficava inconformado com o abandono desse lugar. Comecei em defesa do meu interesse e agora vejo que estou fazendo bem para todos e posso contar com a ajuda de alguns moradores'', conta, orgulhoso.
Para derrubar o mato alto, seu Elias usou uma roçadeira que comprou com recursos próprios. Depois de muito esforço embaixo de sol, ele abriu caminho com uma enxada para a nascente fluir por todo o terreno. ''Antes, toda essa água ficava parada e o terreno não servia para nada. Eu sei que o certo é ela escorrer e seguir caminho, inclusive para não acumular sujeira'', afirma.
Quando o lixo se acumula novamente e o mato cresce, seu Elias conta com a ajuda de alguns garotos do bairro. ''Dou um trocadinho para eles me ajudarem na limpeza. A gente amontoa o entulho e ligamos para a CMTU. Tem gente que fala que estou ajudando a prefeitura, mas eu prefiro pensar que estou arrumando o terreno para a população'', declara.
A satisfação do pernambucano em cuidar da nascente não reflete somente na transformação do local, que hoje tem pés de banana, mamão, laranja, manga, ervas medicinais e até rosas, mas na alegria de seu Elias. ''Aqui eu me sinto bem e lembro muito da minha terra, onde tem muita cachoeira. Só de escutar o barulho da água e ficar sentado ao lado dela me dá uma sensação boa, prazerosa mesmo'', diz.
Nos últimos dias, seu Elias mais uma vez passou horas roçando o terreno. De acordo com ele, ''como morador do bairro, não gostaria de passar o Natal e o Ano Novo com o mato alto em frente de casa. Como ninguém veio limpar, rocei tudo sozinho'', comenta ele, que para o próximo ano já fez seu pedido. ''Gostaria que a prefeitura tivesse mais cuidado para que esse local esteja sempre limpo. Quem sabe um dia possa virar uma praça, com várias árvores e ser aproveitada por todos? Seria maravilhoso'', responde.

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