Numa rápida olhadela pelo escritório da Gelt, em Londrina, um desavisado poderia se imaginar diante de uma empresa de telemarketing. À frente dos computadores, separados por divisórias, boa parte dos funcionários usa fones nos ouvidos. Na verdade, estamos falando de uma firma de desenvolvimento de software, onde os headphones não são instrumentos de trabalho, mas meios de descontração.
Empresários como Tony Novaes, um dos quatro sócios da Gelt, vêm descobrindo que escutar música durante o expediente pode melhorar a qualidade do serviço. Ele teve a prova há cerca de dois anos, justamente quando ''solicitou'' aos colaboradores que abandonassem os fones de ouvido. ''A produção caiu muito. Constatamos que eles tinham mais concentração e conseguiam terminar as tarefas mais rápido com os fones'', conta.
A explicação pode estar no cansaço sofrido por quem tem de passar quase oito horas sentado, com os olhos grudados num monitor. ''Fico mais tenso se não ouço música. Quando esqueço meu fone, peço emprestado'', diz o programador Fabiano de Oliveira e Souza, 21 anos, que trabalha na companhia de Nando Reis e outras dezenas de artistas ''guardados'' em sua máquina.
O headphone também virou amigo inseparável de Carlos Alexandre de Oliveira, 25 anos, que passeia por gêneros de rock mais pesados enquanto cumpre suas tarefas. ''A música às vezes até nos inspira mais a criar'', garante. ''Não acho que o som tire a atenção, pelo contrário, ajuda a concentrar'', completa William Yoshio Okamura, 22 anos. Os dois também trabalham com programação de computadores.
Segundo Novaes, cerca de 90% dos 55 funcionários da empresa de software utilizam fones de ouvido, atualmente. ''Quanto mais jovem, mais usa. Hoje tem o iPod e muita forma gratuita de música. Eles estão sempre plugados na internet, então fica fácil'', analisa. Apesar de se encaixar nesse perfil, o programador Martiniano Duarte, 24 anos, está entre a minoria avessa ao acessório. ''Não consigo trabalhar e ouvir música, não rende'', alega.
Engana-se quem pensa que a prática é estimulada apenas em empresas novas. Há 32 anos em Londrina, a Engenho Propaganda opta por dar liberdade aos seus colaboradores. ''Tem um pessoal nosso que já trabalhou em outras agências e conta que havia gerentes que ficavam fiscalizando o tempo todo. Aqui a gente prefere não perturbar, deixar eles ouvirem música, sair para fumar, descansar um pouco. O trabalho rende mais'', explica Ênio Souza Turques, responsável pelo tráfico (expressão comum no ramo) de informações na agência.
O criador Eduardo Gouveia, 27 anos, confirma. ''O fone de ouvido ajuda a aliviar um pouco a tensão. A produção de arte é um trabalho que exige muito da criatividade'', afirma. A frequência com que faz uso do headphone depende do tipo de trabalho que lhe é exigido. Ele diz que as músicas não chegam a influenciar no conteúdo da criação, mas é possível que haja uma mãozinha de Smiths, New Order, White Stripes e outras bandas do gosto do criador no produto final.

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