A mulher da Kombi verde. Assim ficou conhecida uma das primeiras mulheres a obter a carteira de habilitação em Londrina, Anna Elizabeth Maria de Geus Zekveld. A descendente de holandeses e de alemães completou 90 anos de idade em 2016. Nascida em Carambeí, na região dos Campos Gerais, em 26 de janeiro de 1926, ela veio para Londrina em 1948 para lecionar música no Colégio Londrinense, a convite do Professor Zaqueu de Melo.
Anna recebeu a reportagem da Folha no apartamento que fica na Avenida Paraná. Ao entrar no local, foi possível perceber a influência da cultura neerlandesa. A moradia é repleta de móveis e de objetos holandeses autênticos. Poltronas, escrivaninha, quadros, tamancos, miniaturas de moinhos de vento, louças e um relógio de pêndulo remetem ao universo dos Países Baixos. Essa linha decorativa só é quebrada por alguns objetos de Israel, local onde a filha Dora reside hoje. Anna já esteve por lá algumas vezes.
Para aprender a dirigir, o pai a colocava no colo desde criança e pedia para que ela segurasse no volante. Aos poucos, Anna foi se acostumando ao veículo, mas só obteve a habilitação anos depois. Anna não se recorda de detalhes de como fez para conseguir o documento, mas relata que isso ocorreu pouco tempo depois que se casou com o então técnico de rádio Pieter Zekveld. Ele chegou a Londrina em 1949.
Na década de 1950, os dois deixaram as respectivas profissões e se tornaram representantes da marca Batavo na região, fundada por holandeses radicados em Carambeí. Foram eles que apresentaram o iogurte industrializado para os londrinenses e disponibilizaram vários produtos derivados do leite. A distribuidora logo teve de comprar uma frota de utilitários e optou por comprar dois caminhões e sete Kombis verdes para transportar os produtos de Carambeí a Londrina e também para distribui-los na região. Anna era a única mulher que dirigia o veículo da frota e uma das poucas atrás do volante na cidade. Por este motivo, chamava a atenção por onde passava.
"Eu não sentia preconceito algum. Eu só trabalhava e ficava focada naquele serviço", relata. Ela só se deu conta da notoriedade que havia adquirido na cidade, quando uma funcionária que estava sendo admitida relatou que jamais imaginou que um dia trabalharia com a "mulher da Kombi Verde". Além do serviço na distribuidora, Anna levava e buscava as filhas na escola dirigindo o utilitário. "Todo domingo, depois do almoço, o programa da família era sair dirigindo a Kombi", relembra Anna.
"Minha mãe pegava nós duas, ia para a rodovia e seguia para Castro para buscar a mãe dela. Era uma estrada de barro. Um dia, ela pegou a estrada e era tanto barro que ela não conseguia distinguir mais onde ficava a estrada", relembra a filha Dora.
Anna mostrou à reportagem uma fotografia da época, ao lado do veículo que a tornou famosa. As filhas Dora e Margareth relatam que, desde jovem, a mãe teve de fazer trabalhos pesados. Enquanto solteira, Anna trabalhou com os pais que tinham um moinho de trigo. "Ela carregava sacas de trigo de 60 Kg", conta Margareth.
O solo vermelho da região a obrigava a lavar os uniformes brancos das filhas e a estendê-los distante da casa na Rua Guaporé, onde moravam e onde funcionava a Distribuidora de Laticínios Londrinense. Se as roupas fossem estendidas por ali, a poeira levantada pelos veículos acabava deixando a roupa marrom. "Ela recorria ao varal de uma vizinha que morava mais distante", explica Dora.
A mulher da Kombi verde até hoje franze a testa quando questionada sobre a qualidade das estradas do Norte do Paraná na época. "Eu tinha que usar correntes nas rodas para conseguir andar na lama", relembra. Ao ser questionada sobre as primeiras vias que receberam paralelepípedos e asfalto em Londrina, a memória a traiu mais uma vez. No entanto, Anna ainda lembra a sensação de quando viu a proliferação do asfalto na cidade. "Foi muito bom. Ficou muito mais fácil ir para todos os lugares", comemora. Hoje, Anna já não dirige mais e as filhas a conduzem no dia a dia.

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