A morte de Tiãozinho da Vila Maria
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terça-feira, 12 de novembro de 2002
Fábio Galão<BR>Reportagem Local 
A notícia caiu feito bomba em toda a cidade: Tiãozinho da Vila Maria, lenda local, tinha batido as botas. No bar do Português, ante a melancolia típica de certo estágio da bebedeira, coube ao proprietário puxar a choradeira. ''Puxa, Tiãozinho, que barbaridade, segurei esse moleque no colo, bem antes dele... dele...'' Ora pois, não é que acontecia do Português se esquecer do motivo pelo qual Tiãozinho era famoso? Mas se a cidade inteira lamentava sua morte, coisa grande ele havia de ter feito.
No velório, o clima de desolação era impressionante, coisa de presunto hollywoodiano. O prefeito, de olho na popularidade, engatou um discurso: ''Meu povo, não perdemos neste dia apenas um jovem de fibra, mas sim um patrimônio. Tiãozinho da Vila Maria, aquele que... que...'' E não é que o prefeito não se lembrava também do currículo do morto? Teve que improvisar: ''Que... tanto fez pra honrar o nome de nossa cidade!'' Palmas. Se o prefeito lamentava sua morte, Tiãozinho da Vila Maria havia de ter feito coisa grande.
Pouco depois, quando já levavam o caixão pro cemitério, um repórter entusiasmado correu até a mãe do morto e arriscou: ''A senhora me desculpe... Mas por que o seu filho ficou tão famoso, mesmo?'' Pra quê? Levou bolsada, tapa na cabeça, até ser arrastado para longe do caixão pela multidão indignada. Como um jornalista não sabia uma coisa dessas? Mesmo que a própria mãe não se lembrasse dos motivos que tornaram seu filho lenda, se uma multidão acompanhava seu enterro, Tiãozinho da Vila Maria havia de ter feito coisa grande.
Naquele mesmo dia, nas primeiras horas da madrugada, só restavam os três fregueses de carteirinha no bar do Português. Que, intrigado, iniciou a discussão: ''Olha, vamos deixar de conversa. Vocês são meus amigos há mais de trinta anos, amo cada um aqui como a um irmão. Alguém pode me dizer que raios Tiãozinho da Vila Maria fez?'' O primeiro não sabia. O segundo também não. Mas o terceiro, ar confiante, suspirou: ''Eu sei''. Os outros três o olharam espantados. ''Sabe mesmo?'' ''Sei''.
Ele se levantou e cochichou na orelha de cada um dos três que não conseguiram conter o espanto. ''Mas estão lamentando a morte de um homem que fez isso?'', perguntou o Português. ''É isso aí'', disse o freguês. ''Você já contou pra mais alguém?'' ''Ainda não. Mas amanhã não vai ter jornalista nesta cidade que não vai estar sabendo'', ameaçou.
Aí, os outros três não titubearam. Se jogaram na direção do freguês e literalmente mataram o sujeito de pancada. O corpo foi jogado no rio. O Português, como já dito, era dono de bar. O primeiro freguês tinha um hotel. O segundo, uma agência de turismo. A lenda de Tiãozinho da Vila Maria havia de gerar dividendos para o município. A verdade às vezes só é boa se proporciona certas vantagens. E até hoje, cinco anos depois, ninguém se lembra do que Tiãozinho da Vila Maria fez. Mas pode ter certeza que foi coisa grande.


