O abuso sexual infantil não faz distinção de classes. Porém, a ala mais favorecida economicamente da sociedade não expõe com facilidade a vida privada. Assim como na estória de João e Maria, a miséria também abriga sob o seu teto casos de abuso sexual contra crianças e adolescentes. ''Em uma família com vários filhos onde todos dormem juntos num barraco, é fácil as crianças assistirem os pais fazendo sexo e até participarem das relações sexuais'', avalia a coordenadora do Sentinela.
Segundo ela, algumas vítimas não conseguem falar sobre o problema e pedir socorro. Outras são amordaçadas pelas ameaças dos agressores, que usam até o laço afetivo para prender as crianças um forte aliado da impunidade.
''O agressor ameaça matar a mãe da criança ou diz para a vítima que se contar para alguém, o tio, o pai ou irmão será preso e que acabará perdendo o parente. Também verificamos outras situações em que a palavra do adulto tem mais peso que a de uma criança'', enumera Telcia.
Às vezes, as mães se calam para proteger os agressores. Outras vezes, interferem para piorar a situação.
Crianças que na primeira entrevista com os atendentes do Sentinela contam detalhes da agressão, passam a negar a história, depois que as mães intercedem pelo agressor. Casos como esses revelam a mulher que não quer perder o companheiro ou tem medo de não conseguir sustentar a família sozinha.
Uma medida cautelar de afastamento do agressor pode resguardar a integridade da vítima. Porém, a mãe é peça fundamental na garantia desse recurso. Ela é que se coloca como obstáculo entre a criança e o agressor.
Para a vítima que teve o caminho da vida marcado pela dor do abuso sexual, às vezes a única saída é ir morar num dos três abrigos mantidos pelo Sentinela. Para algumas das 40 crianças que estão nesta situação, resta sonhar com o dia de voltar para casa. Ainda que nunca cheguem a viver um conto de fadas, a esperança é pelo menos ter os direitos mínimos respeitados, como quer e tenta garantir o ECA. (F.L.)

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