Polenta com carne, sopa de macarrão, leite com biscoitos, arroz doce e canjica. Pratos que o aluno de escola pública comia há mais de 20 anos continuam compondo o cardápio essencial das merendas em Londrina, seja na rede municipal ou estadual. Se o Paraná foi vanguarda ao proibir a venda de alimentos gordurosos e industrializados nas cantinas, na hora da merenda que é gratuita os esforços para oferecer opções mais saudáveis e ao mesmo atraentes para a criançada ainda são tímidos.
Uma portaria editada pelos ministérios da Educação e Saúde no mês passado (nº 1010, de 08/05/06) determina que as comunidades escolares adotem ações de educação nutricional, aumentem a oferta de frutas, verduras e legumes, e incorporem o tema ''alimentação saudável'' em seus projetos político-pedagógicos.
Enquanto nada disso é implementado de forma estratégica, diretores vão dando seus jeitinhos de melhorar a merenda em cada colégio. Na Escola Estadual Carlos Dietz, na Zona Oeste de Londrina, a diretora Dalva Pinheiro fica de olho nas promoções dos supermercados para comprar hortifrutigranjeiros mais baratos e, assim, fazer o ''milagre da multiplicação'' da verba repassada pelo Estado no mês passado, pouco mais de R$ 300,00. ''O que as crianças comem bem mesmo é arroz com feijão, mas fizemos muitas delas aprender a comer alface, tomate, beterraba'', destaca. Mesmo assim, frutas, verduras e legumes ainda são oferecidas apenas uma ou duas vezes por semana.
Por incrível que pareça, a situação atual já representa uma evolução na qualidade das merendas, indica a coordenadora do Programa Estadual de Alimentação Escolar, Cristina Stolarski. Segundo ela, foi a partir do programa ''Escola Cidadã'', implantado pela Fundepar em julho do ano passado, que os colégios estaduais passaram a receber cinco repasses anuais para compra de produtos perecíveis. ''A nossa preocupação é diversificar ao máximo a merenda. Recomendamos o consumo de hortaliças pelo menos duas vezes por semana, de frutas uma vez por semana e de ovos uma vez por mês'', explica.
Na primeira pesquisa feita para testar os resultados do programa, 78% das escolas do interior do Paraná responderam que a situação ''melhorou muito'', 19% que ''melhorou pouco'' e 2% que ''não houve melhora''. Com relação aos valores repassados, a coordenadora informou que 63% dos entrevistados disseram que a verba foi ''suficiente'' e 36% que foi ''insuficiente''.
Para que o repasse cumpra sua função, Márcia ressalta que a comunidade deve fiscalizar a aplicação das verbas. ''No começo, observamos que as escolas utilizavam muito o dinheiro para comprar salsicha ou carne de primeira. A verba deve contribuir para uma alimentação mais saudável'', diz. O Estado também está incentivando a compra de alimentos orgânicos. Entretanto, o negócio tem sido inviabilizado em cidades maiores, como Londrina, porque ''os produtores jogam o preço muito acima do valor de mercado'', justifica a coordenadora.
Entre as crianças, engana-se quem pensa que alimentos saudáveis são um fracasso. No refeitório do Carlos Dietz, David José, 7 anos, diz que ''gosta de tudo o que servem, inclusive saladas'', e afirma que fica mais disposto para estudar depois de comer. ''Gosto de todo tipo de verdura, para mim a merenda está boa. Se tivesse sorvete? Não comeria, não gosto'', responde o menino dos sonhos de qualquer nutricionista. Já Maria Eduarda, 7 anos, que prefere aproveitar os recreios para brincar ao invés de comer, conta que não gosta de folhas nem de legumes e só consegue citar a maçã entre as frutas que a atraem. ''Em casa eu como salada, às vezes, porque minha mãe obriga'', admite.
Como na escola ninguém pode ser obrigado a comer, as merendeiras têm papel chave na conquista dos paladares. Com a experiência de 16 anos no ramo, Maria de Fátima Biz, 47 anos, usa a criatividade para contornar caras feias diante dos pratos. ''Recebemos uma bebida de morango que não foi bem aceita. Então, colocamos leite e maisena e servimos como flan. A criançada adorou'', relata a merendeira, com o sorriso largo de quem cozinha com amor.
Ela garante que até o arroz parbolizado que sofreu grande rejeição nas escolas londrinenses quando passou a ser fornecido pelo Estado, no início deste ano fica gostoso quando bem-feito. ''Tem que lavar muito bem antes de cozinhar, até sair aquele cheiro forte. E o principal: você tem que fazer com carinho. Minha felicidade é quando vejo o panelão vazio no final do recreio.''

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