A máquina de retrato que Jovelino ainda não viu
Érika Pelegrino
De Londrina
Nos velhos e bons tempos Jovelino Rofino de Souza, 64 anos, tirava até 20 fotografias por dia. Era início da década de 60 e ele saiu de Bandeirantes onde nasceu para ganhar a vida em Londrina. Começou como garçon, mas logo conheceu um rapaz que tinha uma máquina (lambe-lambe) para vender e resolveu mudar de ramo.
Comprou o equipamento e aprendeu sozinho a tirar retratos. Não parou mais. Há 37 anos está no mesmo ponto na Praça Marechal Floriano Peixoto, esquina com a Avenida Rio de Janeiro. Dali viu a cidade crescer, se modificar. No começo, neste quarteirão, por exemplo (Avenida Rio de Janeiro, em frente à praça), tinha apenas o Banco do Estado do Paraná e uma casinha de madeira. As ruas eram de paralelepípedo, a praça não tinha canteiros, a Catedral era menor, o movimento de carros também era bem menor, lembra.
Enfim, Jovelino de Souza viu o tempo passar e acabou atropelado por ele. A mesma profissão que lhe permitiu criar cinco filhos, comprar uma casa quitada, hoje não rende quase nada. O movimento é muito ruim. A tecnologia acabou com tudo quanto é serviço, lamenta.
Ainda trabalhando com os princípios mais rudimentares da fotografia, Jovelino de Souza se espanta ao saber que hoje existem câmeras fotográficas digitais. Que diacho é isto?, pergunta. O fotógrafo da Folha explica: São câmeras que não precisam de filme.
Jovelino de Souza balança a cabeça como se não acreditasse no que estava ouvindo e fala: Qualquer dia você me mostra como é isto. Hoje ele chega no ponto às 8h30 e vai para casa, nos Cinco Conjuntos (zona norte), às 18 horas. Muitas vezes sem tirar nenhum retrato. As pessoas até que param, perguntam quanto é, mas vão embora.
Em época de matrícula escolar e vestibular o movimento melhora um pouco, afirma. Fora deste período as pessoas que param e tiram fotografia, segundo Jovelino de Souza, são aquelas que têm pressa. Em 15 minutos as fotos estão prontas. Meia dúzia por R$ 4,00.
E porque ele não larga este serviço? Não dá. Vou trabalhar com o que? Se não tem emprego para os jovens, não é para nós que já estamos velhos que vai ter. Para ajudar na renda da casa, até a mulher de Jovelino de Souza começou a trabalhar. Faz pouco tempo, mas ela ajuda fazendo artesanato.
Num tom de amargura e desesperança, Jovelino de Souza afirma que não tem mais nenhum sonho. Talvez só a volta dos velhos e bons tempos pudesse lhe trazer alguma alegria. Ah! Mas estes não voltam mais, lamenta.Lambe-lambe começou na profissão na década de 60 e tirava até 20 fotografias por dia. Hoje não tem mais serviço e sente saudade dos velhos tempos
Mário CesarJovelino de Souza, com sua antiga máquina de tirar retratos três por quatro: A tecnologia acabou com tudo





