Gabriel tem cinco anos e ainda gosta de tomar uma mamadeira cheia de leite de manhã, no lanche da tarde e antes de dormir. Vez ou outra ele acorda de madrugada pedindo o leitinho. Segundo sua mãe, a secretária Renata Borges, aos quatro meses de idade ele simplesmente desistiu de mamar no peito e ela teve de apelar para a mamadeira.
''Ele nunca quis chupeta e nunca colocou nada estranho na boca, nem nunca chupou o dedo. Creio que ele gosta é do leite mesmo'', comenta a mãe, garantindo que não é falta de outros alimentos que faz o menino querer leite. ''Ele come muito bem.'' Renata deseja que o filho deixe a mamadeira de vez, mas tem dificuldade em convencê-lo a abandonar o hábito.
Conforme dados da II Pesquisa Nacional de Práticas Alimentares no Primeiro Ano de Vida, divulgada recentemente, houve decréscimo no uso de mamadeiras e chupetas em todo o Brasil e também na Região Sul, ''mas os índices ainda são altos, principalmente por questões culturais'', opina a fonoaudióloga Valentina Rodrigues, da Secretaria de Saúde de Londrina.
Segundo ela, na pesquisa, 63,95% dos bebês com até um ano de idade tomam mamadeira, quando os especialistas preconizam o uso do copinho. ''Pessoas se assustam, mas o copinho previne contra as deformidades na cavidade bucal'', ensina Valentina, sugerindo que os pais acostumem os nenês a usar primeiro copinhos tampados e com canudo.
Conforme Valentina, se na Região Sul 53,7% dos bebês com até um ano usam chupeta, em Londrina este número cai para 45,84%. ''Crianças em aleitamento materno são nutridas também pelo afeto da mãe, por meio do vínculo e da segurança experimentados no momento da amamentação'', explica a fonoaudióloga.
Já a chupeta pode se tornar uma via de contaminação pela má higienização, tornando-se fator de risco para adoecimento da criança, além de promover um gasto de energia desnecessário ao bebê, segundo Valentina. Ela cita o acessório como um dos fatores de risco ao desmame precoce. ''Chupeta é consolo para a mãe, que não tolera o choro do filho, e para o bebê, que aceita como algo que lhe dá prazer.''
Para ela, o uso da chupeta deveria ser prescrito, ''para evitar a sucção digital e desenvolver a sucção em bebês que não podem ser amamentados. E também como sucção não nutritiva em procedimentos dolorosos, para diminuir o trauma.''
Deformidade na cavidade oral, na arcada dentária, problemas respiratórios e prejuízos ósseo e muscular da face são alguns resultados negativos do uso da chupeta, que também diminui a capacidade de aprendizado da criança, cuja oxigenação do cérebro se torna precária. ''Sucção no peito é mecânica, própria para desenvolver os músculos da face. Já a sucção com a mamadeira é mais fácil, por isso causa flacidez na musculatura e até defeitos na fala'', comenta. Ela lembra, porém, que como o aleitamento é uma questão cultural, será preciso gerações até que a sociedade adote novos comportamentos.

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