Uma chaminé de cerca de 80 metros de altura ainda guarda em seu interior vestígios da época em que o edifício Centro Comercial de Londrina abrigava uma parte da elite londrinense em seus três prédios de 20 andares. Naquela época, o lixo proveniente dos apartamentos era incinerado no subsolo, e a fumaça subia pela chaminé, construída em anexo a um dos edifícios, até a parte superior da casa de máquinas, depois do vigésimo andar.
Na década de 1970, a fumaça que diariamente era expelida no alto do prédio precisou cessar. Uma lei municipal proibiu a incineração do lixo, e a chaminé ficou sem uso durante vários anos. Mas, no início da década de 1980, Lucílio Antunes Anacleto, 71 anos, proprietário da lanchonete Estoril, descobriu que a coluna na despensa ao fundo de seu estabelecimento era parte da chaminé. O comerciante não teve dúvidas: fechou a parte de baixo e construiu, com a anuência do síndico, uma churrasqueira - provavelmente com a maior chaminé do mundo.
Hoje, a churrasqueira é utilizada não apenas pela família, mas também por clientes de confiança, que, além do prazer de fazer um churrasco em um lugar tão especial, ainda contam com a hospitalidade de Anacleto. ''Eles trazem a carne, o carvão e usam de graça mesmo. Outro dia assaram até peixe'', conta.
O comerciante esclarece que a chaminé não requer manutenção nenhuma, e não esconde o prazer de ter em seu estabelecimento essa curiosidade histórica, que já rendeu várias matérias em jornais e até a idéia (não levada adiante) de inseri-la no livro dos recordes.
''Quando a gente faz churrasco de dia, dá para ver a fumaça saindo lá do alto'', revela, enquanto conduz a equipe da FOLHA por dois sótãos de menos de 1,5 metro de altura e três pequenos lances de escada até chegar à parte de trás do prédio, de onde é possível observar que a chaminé mais parece um elemento de decoração da fachada do edifício.
Anacleto revela que abriu seu estabelecimento (em sociedade com o irmão e o cunhado), na época um armazém de secos e molhados, em 1962, antes mesmo do término das obras do Centro Comercial. Boutiques, sapatarias, lojas e serviços diversos e até uma espécie de mercado hortifrutigranjeiro (que funcionou durante pouco mais de um ano no piso onde hoje fica o estacionamento do prédio) fizeram daquela área uma das mais movimentadas de Londrina durante muitos anos. ''Era o shopping do Norte do Paraná. Vinha gente de fora, era muito movimentado. Mas, das lojas daquela época, só sobramos eu e o sapateiro'', comenta, recordando-se da época em que chegou a vender 1.200 pães e 800 litros de leite por dia.
O comerciante, que chegou a Londrina em 1960, vindo de Portugal ao encontro de seu irmão, confessa que inicialmente ficou um pouco desapontado com a cidade, mas hoje sente muita saudade daqueles tempos em que seu estabelecimento (hoje uma lanchonete) era frequentado inclusive por políticos, como José Richa, Álvaro Dias e Osvaldo Macedo. ''Antes era muito melhor, a gente tinha mais confiança em todo mundo, e a cidade era mais segura'', observa.
Os tempos mudaram, a cidade virou metrópole. Mas ainda hoje, alguns clientes antigos continuam a frequentar o ''Bar do Português'', mesmo já não morando mais nas proximidades, como quem vem ao encontro do próprio passado, grudado feito fuligem em algum ponto dos 80 metros da chaminé.

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